É lugar comum ouvirmos dizer que vivemos na civilização do automóvel. Somente tive melhor noção do significado desta expressão agora que fiquei por um período sem carro. Isso, depois de muitos anos andando isolado numa cabine de metal em rodovias ou nas ruas das cidades, sempre com horário apertado. Há alguns anos, o automóvel era privilégio de muito poucos e possuí-lo estava além de um símbolo da posição social. Enfrentamos longos financiamentos e demais obrigações para manter um instrumento que permitisse o deslocamento relativamente rápido, no momento que escolhêssemos. Períodos com mais de um emprego, crianças a transportar, “correr atrás do prejuízo” como se dizia, era o desafio. Isto valeu e ainda vale para muitos brasileiros e o país estruturou-se para o deslocamento das pessoas, muitas vezes sós, ao volante de suas máquinas. O transporte público é deficiente e muitas distâncias precisavam e precisam ser percorridas. Pessoas muito determinadas a isso ou aqueles que ainda estavam batalhando para ingressar no mundo sobre quatro rodas é que não tinham automóvel. Este modelo mostra sinais de esgotamento e muitos já procuram prestigiar o transporte coletivo como meio de deslocamento e interação social. Há uma cobrança crescente para que as autoridades tornem eficiente o transporte coletivo público.

O dia-a-dia dos terminais e o interior dos coletivos é um espaço interessantíssimo de vivência social. Quem viaja de automóvel, assim que pode entra nas redes sociais para “discutir” o tema do momento. Opina sobre o eventual afastamento do prefeito, sobre a Copa do Mundo ou outro assunto da moda sem maior compromisso com a verdadeira interação, pois nem sempre mostra seu verdadeiro perfil. Nos coletivos, principalmente entre os jovens, vemos também pessoas isoladas do conjunto a teclar em seus aparelhos “inteligentes”. Porém, também vemos pessoas que demonstram alegria ao se reencontrar, comentando fatos ocorridos no cotidiano da realidade em que vivem. Trocam informações e ajudam-se, realmente preocupadas com o viver concreto. Ali, me parece, são mais autenticas do que escondidas atrás de imagens de girafas ou de outra onda qualquer. Ainda não me sinto preparado para escrever sobre este dia-a-dia das pessoas tão real como vejo nos ônibus, mas gosto de observá-lo. Vejo que o mundo gira de forma bem interessante também para os que não estão presos na cabine dos carros. Tornar-se sábio é muito difícil e às vezes sequer vamos consegui-lo. Olhar o todo e procurar compreendê-lo me parece indispensável.
 

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