Fui ao médico na semana passada. Uma consulta pós-operatória no ambulatório de oftalmologia do Hospital Evangélico em decorrência de várias cirurgias que tenho feito ao longo do último ano em meu olho direito. Os procedimentos cirúrgicos a que me submeti fazem parte da luta diária que travo para não perder totalmente a visão deste olho. Todos os dias são dezenas de gotas de colírios. Mensalmente algumas consultas, exames e outras coisas mais. Se Deus quiser sairei vitorioso.


Aliás, já estou sendo um vitorioso. Isso porque sempre que vou ao Hospital Evangélico vejo histórias mais tristes do que a minha. Pessoas que, assim como eu, não encontraram em sua cidade a estrutura necessária para se tratar e tiveram que recorrer a outro Município.


Isto mesmo. Não foi a Secretaria de Saúde de Araucária que me encaminhou para receber tratamento em Curitiba. Na época, eles disseram que não tinham convênio ou qualquer tipo de parceria com um hospital que pudesse tratar do meu problema. Um descolamento de retina causado sei lá como. O anjo da guarda do meu olho foi uma médica que trabalha em Araucária e que por poucos dias ocupou o cargo de secretária de Saúde em 2008. Ela conhecia um profissional que atuava na rede pública de Curitiba, que concordou em me atender e encaminhar-me ao Hospital Evangélico. Devo a ela 50% da minha visão do olho direito, que é o que me sobrou (graças a Deus) da capacidade de enxergar. Obrigado, doutora!


A breve introdução acima é necessária para que possamos fazer a crítica de costume contra o estado em que se encontra a Saúde em nossa cidade e nosso país. Nas dezenas de vezes em que permaneci por horas no Hospital Evangélico aguardando atendimento ouvi histórias incríveis. Pessoas de todos os cantos do Paraná que vinham até Curitiba em busca de uma consulta que poderia salvar sua capacidade de ver o mundo. Muitas delas, infelizmente, ouviam dos médicos diagnósticos de que já era tarde para qualquer tipo de tratamento. Era preciso que os pacientes tivessem vindo antes. Mas como vir antes se o agendamento de uma consulta com um oftalmologista na rede pública demora meses, anos? Das histórias tristes que ouvi, lembro-me de uma com uma nitidez que meu olho direito já não é mais capaz de reproduzir. Uma criança de dez anos. A mãe dela, uma senhora simples e ignorante (lembrando que ignorância não é ofensa), que não sabia assinar o próprio nome, nunca se preocupou em levar o filho ao “oculista” (como dizia ela). Resultado, quando a criança começou a estudar, sua professora notou que ele não enxergava direito o quadro verde. Pediu então que a mãe o levasse ao oftalmologista. A mãe foi até o “postinho de saúde” de sua cidade para ver se conseguia o especialista. A consulta saiu. Dois anos e meio depois. Já era tarde demais. Não havia mais o que fazer. A visão da criança continuaria a piorar. Até que ela passasse a enxergar somente vultos e um dia nem isso. Agora, minha gente, digam: como explicar para uma criança de dez anos que ela perderá a visão antes de completar dezoito anos?


A história acima é insignificante se compararmos com outras que ouvimos todos os dias. Quem de nós não tem um conhecido, familiar ou amigo que também está aguardando uma consulta com um especialista, seja ele um cardiologista, oncologista, ortopedista… há meses ou em alguns casos até anos? Usando um chavão para concluir este texto, é preciso que lembremos diariamente a nossas autoridades que “com Saúde não se brinca”, ainda mais quando estamos falando da nossa Saúde!


E você, o que pensa sobre o assunto? Dê seu pitaco.


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