Durante meus dias de exílio no Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), na área rural de Araucária, ainda quando era funcionário concursado da Prefeitura, conheci Negão, um cão daqueles sem raça definida. Quando desembarquei naquele setor, em 21 de agosto de 2009, ele já estava lá e quando deixei o CCZ, isso em 3 de julho de 2011, por lá Negão também ficou. Na semana passada, porém, recebi a triste notícia de que ele já não pertence mais a este plano. Negão se foi.

Confesso que eu e Negão nunca fomos amigos, mas aprendi a respeitá-lo. Tanto é que tomei a liberdade de utilizá-lo em meus textos algumas vezes. Seu auge foi quando o lancei candidato a vereador, isso no segundo semestre de 2010. Na época, os edis da cidade estavam discutindo um daqueles projetos extremamente corporativistas, que não resultam em nada de melhoria para a comunidade, e disse que fazer aquilo que nossos parlamentares estavam fazendo até o Negão faria.

O que mais incomodou alguns políticos locais naquele artigo foi a comparação que fiz entre um problema de saúde que Negão tinha e a atuação dos nossos vereadores. Acontece que ele sofria de incontinência fecal e urinária e Negão, literalmente, defecava e se locomovia pelo terreno do CCZ. Logo, não fazia muito diferente do que faziam (e fazem) alguns dos nossos homens públicos, só que no sentido conotativo da palavra.

Mas, independentemente da enrascada que o coloquei ao compará-lo aos nossos políticos, é preciso analtecer o exemplo que Negão nos deixou. Quando chegou ao CCZ, após ser atropelado, ninguém deu muitos dias de vida a ele, mas o bicho sobreviveu, muito – obviamente – pela dedicação dos profissionais daquele setor que lhe dispensaram uma atenção homérica. Aos poucos, Negão foi melhorando e mesmo com uma fratura na coluna reaprendeu a andar. Primeiro com o auxílio de uma cadeirinha de rodas e, mais tarde, como um verdadeiro Forrest Gump, dispensou o auxílio e saiu a galopar pelo terreno do CCZ. Foi um vencedor!

Infelizmente, as sequelas do acidente tornaram Negão um cão especial, o que impossibilitou a sua adoção. Afinal, quem levaria para casa um animal incontinente? Tantas foram as vezes que vi Negão faceiro da vida quando famílias e mais famílias chegavam ao CCZ em busca de um cão para adotar. Elas, porém, iam embora com outros cachorrinhos, e ele lá ficava. Isso, no entanto, como é próprio dos animais, não abalava Negão.

E foi justamente essa postura de Negão que fez com que eu me identificasse muito como ele. Negão era como eu: chegou ao CCZ atropelado, conseguiu se recuperar e sempre estava doido para ir embora. Eu consegui. Negão, por sua vez, já que ninguém o adotava, optou por adotar o CCZ e lá viveu feliz para “sempre” até a última quinta-feira, 5 de dezembro. Como última homenagem, os funcionários do setor não o colocaram no tradicional saco e o mandaram para incineração. Muito pelo contrário! Negão, cujo passatempo preferido era cavar buracos pelo terreno do CCZ, foi enterrado ali mesmo. Nada mais justo que sua morada em vida seja também sua morada por toda a eternidade!

Boa semana a todos. Comentários são bem vindos.

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