Noite em Caracas é uma obra visceral que se insere no que a crítica contemporânea define como “literatura da diáspora venezuelana”. Sua autora, Karina Sainz Borgo — jornalista e escritora nascida em Caracas em 1982 e radicada em Madri desde 2006 —, logrou êxito internacional, tendo sua obra vertida para mais de trinta idiomas.

O romance, de matiz distópico, apresenta uma capital asfixiada pela violência, pela anarquia e pela desintegração absoluta do tecido social. Através da jornada da protagonista Adelaida Falcón, testemunhamos um país em estado de decomposição, onde a sobrevivência é a única instituição que resta. Borgo costura com maestria o drama do exílio e a culpa do sobrevivente, temas que transcendem as páginas para espelhar a crise humanitária real que devastou a Venezuela.

Contudo, a ficção parece ter sido ultrapassada pela realidade naquela madrugada fatídica de 3 de janeiro de 2026. Às 2h, sob o céu de Caracas, uma operação das forças especiais dos Estados Unidos capturou o ditador Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. O evento não apenas alterou o destino da nação caribenha, mas abalou os alicerces da ordem mundial estabelecida no pós-guerra de 1945.

É melancólico constatar que o início de 2026 tenha sido marcado por esse paradoxo: enquanto se celebrava a queda de um tirano que afundou seu povo em miséria sem precedentes, assistia-se também ao esfacelamento da Carta das Nações. O documento, pilar da soberania e do multilateralismo, foi preterido em nome de uma intervenção unilateral.

O que restou daquela “noite em Caracas” não foi o triunfo da liberdade. O regime chavista persiste, agora sustentado por acordos opacos com Washington. Ficou evidente que o motor da ação nunca foi a restauração democrática, mas a busca por hegemonia energética e o controle do petróleo no que os americanos historicamente consideram seu “quintal”. Naquela noite, a geopolítica das grandes potências aproximou-se perigosamente da nossa própria fronteira, lembrando-nos que, no jogo pelo poder global, a soberania é a primeira vítima.

Edição n.º 1499.