Há exatamente um mês, no início da madrugada de 28 de janeiro de 2026, quatro cães comunitários que viviam nos arredores do Centro de Distribuição do Mercado Livre, em Araucária, eram cruelmente retirados do local por funcionários da empresa.

A execução da “limpeza petnica” foi premeditada e orquestrada por funcionários do alto escalão do Centro de Distribuição do Mercado Livre. O termo “limpeza petnica” – embora não exista oficialmente – pode ser empregado neste caso porque os relatos dão conta de que aqueles que a executaram o fizeram exclusivamente porque tinham ojeriza ao convívio com os animais. Não houve relatos de que os cães representavam algum tipo de risco as operações da empresa e, da mesma forma, nenhum tipo de tentativa de encaminhamento dos animais para uma adoção responsável ou algo do gênero. Foi o simples asco pelos pets que parece ter movido seus algozes.

Desde que o caso veio à tona, a direção do Mercado Livre no Brasil deu várias versões para a ação. Primeiro tentou dar ar de naturalidade ao caso. Informou que os cães foram cuidadosamente retirados do local por uma equipe especializada, que os levou para uma ONG em Fazenda Rio Grande, a DNA Animal.

A versão, no entanto, foi desmascarada quando a própria ONG informou que os animais foram levados à sua sede apenas 14 dias após terem sido retirados do estacionamento do Mercado Livre. Para piorar, a entidade apresentou fotos e afirmou que os cães deixados sob sua tutela não eram os mesmos que viviam em Araucária.A monstruosidade começou a ficar escancarada quando fotos de um enforcador improvisado vieram à tona. O item foi utilizado para conter violentamente os cães na madrugada de 28 de janeiro. A premeditação ficou ainda mais evidente quando se soube que a direção do Centro de Distribuição chegou a locar um veículo Fiat Fiorino da empresa Localiza Rent a Car especialmente para servir de carrocinha para os cachorros naquela noite de terror para Xuxa, Lobão, Rajada e Cara Preta.

Na mesma ocasião em que a ONG informou que os cães que recebeu não eram os desaparecidos de Araucária um vereador de Campo Largo, Rafael Freitas, informou que esses cachorros eram comunitários que viviam no bairro Botiatuva, naquela cidade. Os pets haviam sido “sequestrados” de lá por uma funcionária do Mercado Livre em 10 de fevereiro. Na oportunidade ela se apresentou como uma apoiadora da ONG DNA Animal e disse que os cães seriam acolhidos. Imagens de uma câmera de segurança mostram a mulher chegando ao local em seu SUV, um Haval, para apanhar os cachorros com o apoio de uma outra pessoa que dirigia uma Spinter.

Com a primeira versão desmascarada, a direção nacional do Mercado Livre em São Paulo iniciou uma investigação interna e passou a considerar a possibilidade de que seus funcionários de comando em Araucária não estivessem falando a verdade. Em plena terça-feira de Carnaval, em 17 de fevereiro, uma nota da empresa informou que todos os colaboradores envolvidos direta e indiretamente no episódio haviam sido desligados e que o grupo contratou uma empresa chamada Petetive para tentar localizar os cães desaparecidos.

Na mesma terça-feira (17), no período da noite, dois dos cães desaparecidos, Xuxa e Lobão, foram localizados em Campo Largo. As buscas que resultaram em sua localização foram feitas pela Paraná Contra Maus-Tratos, que tem entre seus integrantes os vereadores Rafael Freitas e Andressa Bianchessi e o deputado federal Matheus Laiola.

Também nessa terça-feira de Carnaval foi divulgada a imagem da câmera de segurança de uma casa localizada no bairro Boatituva, em Campo Largo. A data da gravação é 28 de janeiro. A hora? 1h40. Ela mostra a Fiat Fiorino utilizada na captura dos cães passando por uma rotatória. Três minutos depois o mesmo carro faz o caminho de volta. Considerando que o local em que a gravação foi feita é próximo a área em que Xuxa e Lobão foram localizados, é possível conjecturar que os funcionários do Mercado Livre envolvidos na “limpeza petnica” suprimiram os cães do estacionamento do Centro de Distribuição e os desovaram para morrer numa área de mata de Campo Largo.

Em 19 de fevereiro, dois dias depois de Xuxa e Lobão terem sido encontrados, o Mercado Livre chegou a informar que localizou o terceiro dos cães. Após análises, no entanto, foi confirmado de que se tratou de um alarme falso.Nossa reportagem entrou em contato com a assessoria do Mercado Livre na quarta-feira, 25 de fevereiro, questionando como andavam as buscas por Rajada e Cara Preta. Eles informaram que a Petetive continuava procurando, mas que até o momento ainda não haviam encontrado nenhuma das duas cachorras.

Investigação policial

O caso da “limpeza petnica” dos cães do Mercado Livre é objeto de um inquérito aberto pela Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente. O órgão policial esteve no Centro de Distribuição e até onde se sabe já ouviu algumas pessoas. Não se sabe, no entanto, quantas pessoas são investigadas e nem há previsão para conclusão dos trabalhos.

Ministério Público

Outro órgão que também informou ter instaurado procedimento para apurar a responsabilidade dos funcionários e do Mercado Livre no caso é a 1ª Promotoria de Justiça de Araucária.

Ação civil pública

Outro movimento que busca a responsabilização do Mercado Livre no desaparecimento dos cães acontece por meio de uma ação civil pública. Ela é movida pela Organização Não Governamental (ONG) Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal. O processo tramita na 2ª Vara Cível de Araucária.

Inicialmente, a juíza que analisou o pedido deferiu parcialmente os pedidos feitos pela ONG e deu cinco dias para que o Mercado Livre:

a) informe oficialmente se realizou, por si ou por intermédio de prepostos, a captura dos animais;

b) apresente eventuais documentos internos, comunicações, ordens de serviço ou registros relacionados aos fatos narrados;

c) esclareça se houve ordem institucional para a retirada dos animais das dependências do Centro de Distribuição;

d) informe se houve encaminhamento dos referidos animais a alguma ONG, entidade de acolhimento ou outro destino, especificando datas, responsáveis e comprovantes. A decisão é do dia 25 de fevereiro e o prazo passa a contar a partir do momento em que a empresa foi intimada.

O Popular seguirá acompanhando os desdobramentos do caso e, caso você tenha informações que possam levar à localização da Rajada e Cara Preta, ligue para o 181 ou acione a Paraná Contra Maus-Tratos.