Quando um profissional demonstra paixão pela sua área de atuação, ele desenvolve estratégias para proporcionar um ambiente de cuidado e conforto aos seus pacientes. A fisioterapeuta araucariense Jaqueline Maria Burkot, 35 anos, é um exemplo disso, ela emprega o uso da língua polonesa na maioria dos seus atendimentos. O polonês, conta ela, representa a língua da infância, das emoções e das primeiras recordações de muitos pacientes.

“A utilização da língua contribui para a superação de barreiras, estimula a memória e facilita a comunicação com meus pacientes. Trata-se não apenas de um suporte terapêutico, mas também da reconstrução da identidade e do fortalecimento do senso de pertencimento”, afirma.

Jaqueline é descendente da quinta geração de poloneses estabelecidos no Brasil. Seus ancestrais emigraram em 1885 da Galícia, então parte do Império Austro-Húngaro, rumo à região sul do país. Filha de agricultores, ela passou sua infância em meio à lavoura, em um lar onde a língua polonesa era preservada e praticada.

Formada em 2013 pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC), Jaqueline é pós-graduada em Dermatofuncional, especialista em Pilates, Prótese de quadril, Doenças neurológicas (Parkinson, Alzheimer, AVC) e ainda á autora de um artigo publicado internacionalmente sobre Parkinson. Antes de abrir sua própria clínica, a FisioArth, ela atuou em outra clínica de fisioterapia de Araucária, onde atendia em domicílio. Ela conta que foi a chegada do filho que a encorajou ao empreendedorismo.

Durante os atendimentos, ela foi percebendo que muitos pacientes preferiam fazer a terapia em polonês, pela facilidade do idioma, por ser a língua materna deles. “Alguns têm dificuldade em falar português, e em polonês eles ficam mais felizes, colaboram mais, até a receptividade muda para fazer os exercícios.

Atender esses descendentes usando a língua polonesa sempre foi meu diferencial”, comenta a fisioterapeuta.

Uso do polonês aproxima fisioterapeuta araucariense de pacientes da etnia
A música é uma ferramenta essencial na reabilitação de Cecilia Wardenski

CASOS QUE MARCARAM

Jaqueline descreve que são muitos os casos que já passaram pelas suas mãos, mas alguns marcaram mais, como a história de uma paciente que tem surdez e só fala em polonês. “Estava acamada a mais de três anos, sem caminhar, e já cheguei falando com ela em polonês. A cada dia eu a percebia mais determinada em sair daquela cama. Hoje ela está bem, com seus 89 anos, e sempre me acolhe com sorriso, e falando somente em polonês”.

O uso do idioma polonês, continua a fisioterapeuta, facilita a interação com os pacientes que têm demência, doenças neurológicas, AVC, Parkinson, Alzheimer, porque a língua está ligada ao passado deles. “Percebo um lado emocional ativado, uma emoção que toma conta deles quando falamos ou cantamos canções antigas polonesas. Digo isso porque atendo uma paciente com lesão na fala pós sequelas de um AVC, que voltou a interagir quando comecei a cantar para ela em polonês. Muitas vezes, ela dá sequência ao canto, e vão surgindo mais palavras. O uso da oração acalma também”, explica.

Segundo ela, a conexão emocional favorece a liberação de neurotransmissores associados ao bem-estar, melhora o humor e reduz a resistência ao esforço físico. O resultado é um paciente mais engajado, com maior disposição para executar movimentos repetitivos — fundamentais na reabilitação motora — e com evolução funcional mais rápida.

Hoje, cerca de 80% dos atendimentos domiciliares da fisioterapeuta são realizados em polonês; no consultório, aproximadamente metade das sessões utiliza o idioma. A repercussão nas redes sociais ampliou a procura. Novos pacientes ligam perguntando se ela é ‘a fisioterapeuta que atende em polonês’.

“Meu trabalho só passou a ser divulgado nos canais da internet por incentivo de pacientes e seus familiares, amigos, parentes. Sempre fui mais discreta em relação ao meu trabalho, então postei pelo incentivo deles, nunca imaginei que iria atingir essa proporção de hoje. Mostro meu trabalho por amor, pela acolhida, e pela alegria em exercer essa profissão. Acredito que o polonês abriu muitas portas para mim, por incentivo dos meus pais, meus avós. Nunca tive vergonha ou preconceito, e sempre estou inserida nos eventos voltados à cultura. Canto no coral polonês da cidade e faço parte da Braspol”, declara.

Edição n.º 1504.