Vando Fortuna: Leitor — casado, hétero, religioso e gay no sigilo
Meu leitor, eu sei que você me lê.
Lê cada sílaba, cada linha, cada pensamento sujo ou sagrado que eu solto aqui. Lê escondido, no sigilo, por trás da tela, da tribuna ou da Bíblia aberta. Não tem problema. Pode ler. Pode amar. Confessa.
Minha voz te seduz, te instiga, te bagunça por dentro. É um mix estranho de paixão e raiva, admiração e repulsa. Você quer me punir e, ao mesmo tempo, me possuir bem perto. Me xinga baixinho enquanto lê, mas volta sempre. Volta com saudade. Volta com fome. Porque você sabe que eu escrevo quente.
Qual vai ser a heresia da vez? O que aquele profano do Vando vai soltar agora? “Porque o Vando não é santinho não… ele é pecador assumido, gosta de pecar e assume. O Vando não é hétero não, é bem gay e acha isso maravilhoso. Ele traz uma espiritualidade que vem da rua, dos Tranca-Ruas, das prostitutas. Conheceu Jesus no meio delas e gosta de rezar ali, do lado delas. Ah, Vando sem-vergonha!”
Pois é. A espiritualidade que eu te ofereço não desceu do altar. Ela subiu do chão. Depois de sarjeta, armário, medo e abandono. E agora eu te convido: sai você também do teu armário. Mas sai sem medo.
Enquanto você sangra por dentro, pode me xingar. Vai te fazer bem. Eu já estive exatamente onde você está agora: com medo, com abandono paterno, com patriarcado atravessado na garganta, com dogma religioso batendo na cabeça, com agressões que nunca foram ditas em voz alta. Eu conheço esse inferno disfarçado de promessa de paraíso.
Não é fácil quebrar no meio. Não é confortável me ver falando de fora dos teus altares, de fora dos teus papéis decorados, de fora da jaula que te disseram que era lar. Nascer diferente e ter que viver igual… eu sei como dói.
Mas calma.
O Vando profano está aqui.
Eu te dou medo e prazer ao mesmo tempo, não dou? E o prazer narrativo que eu te dou é bem mais gostoso que o convencional. Não é só mamãe-papai, papai-papai ou mamãe-mamãe. É o que a tua mente tiver coragem de inventar e quebrar. Bora criar?
Enquanto você não entende o que sente por mim, continua lendo. Eu não te julgo. Às vezes você lê o Padre André, às vezes o Waldiclei, às vezes a Maurenn. Tudo bem. E quando o ódio apertar muito, vai lá ler o resumo da novela no final do jornal. Depois volta.
Seja hétero, casado, gay enrustido, cristão fervoroso, macumbeiro ou pagão… pode chegar.
A coluna do Vando é como porta de cabaré: você entra apertado, cheio de ideia fixa, cheio de rotina morta. Depois de algumas voltas nas minhas linhas, sai mais leve, mais maroto… e geralmente ainda no sigilo.
Porque no sigilo fica mais gostoso.
Edição n.º 1514.
