No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus… e nas mãos dos hateres, o Verbo se transformou em faca. E das ofensas nasceram mortes silenciosas. Muitas vidas foram dizimadas no escuro, sem que ninguém nunca encontrasse as mãos covardes sujas de sangue.

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Meu leitor, para um pouco e imagina: seu filho, seu sobrinho pequeno, ou qualquer criança saindo de casa feliz, sorridente, cheia de esperança… e voltando da escola já com o olhar morto. Dias depois perde o apetite. Fica calada. Anos mais tarde vira aquele adolescente trancado no quarto, dopado de remédio pra humor, vivendo dentro do celular, sem socializar, sem namorar, sem desejo nenhum, nem no culto, nem na rua, nem na vida.

Consegue visualizar?

De repente aquela vida simplesmente some. Evapora. Some do mapa antes da hora. E todo mundo fica se perguntando “o que aconteceu?”.

Esse é o poder podre do verbo. O mesmo que foi feito pra dar vida também serve pra matar devagar. Hoje, nas escolas, milhares de crianças e adolescentes são massacrados por causa do corpo, da cor, do sotaque, da religião ou da sexualidade. E quase nunca conseguem enfrentar sozinhos essa manada covarde de preconceituosos.

Sim, manada. Porque raramente é um só. É um bando inteiro se divertindo com o sofrimento alheio.

A escola, quando faz alguma coisa, geralmente troca o aluno de turma, muda o turno, transfere o problema… mas não tem coragem de enfrentar a raiz da maldade.

E a criança começa a engolir aquilo. Acredita que é verdade. Porque se tanta gente está falando, deve ser mesmo. Muitas nem conseguem contar pros pais. Se calam. Se isolam. E vão morrendo por dentro, aos poucos.

Quantos jovens que tiraram a própria vida você já viu? Agora multiplica por dez os que morreram calados, esmagados por verbos assassinos antes mesmo de chegar no gesto final.

Eu senti esse veneno na pele.

Primeiro por ser gordo. Depois por ser afeminado.

Chegava em casa sangrando por dentro e ainda escutava da minha própria mãe: “Para de chorar, menininha”. Ela não fala mais isso hoje, fez terapia, enfrentou os próprios demônios. Mas na época aquilo era a facada final. Ofensa na escola + ofensa em casa = você começa a achar que realmente é um erro da criação, uma sobra de barro que Deus deixou escapar.

E muitos não aguentam. Vão embora.

Eu, não. Eu decidi ficar.

E quando entendi que o mesmo verbo que fere pode também cortar as correntes, eu aceitei meu chamado: escrever no ouvido de quem precisa ouvir, mesmo que doa.

Hoje eu escrevo pra vidas anônimas. Tem quem me leia escondido e nunca vai assumir. Tem quem me odeie justamente porque minhas palavras batem onde mais dói. E tem quem respira fundo e pensa: “Finalmente alguém falou”.

Não é pra ser bonito. Não é pra ser confortável. Não é pra agradar.

Quando a turma do fundão inteira vaia sua existência, o instinto não é virar herói. É se encolher pra sobreviver. Nem todo mundo tem força pra reagir na hora.

Jesus foi direto: encontrou a legião de demônios e mandou todos pra dentro dos porcos de uma vez.

Nós, aqui no chão, vamos tirando um espírito de porco por vez. Com paciência e sem piedade.

Porque no final, queremos pegar aquele Verbo que estava no princípio com Deus e fazer ele voltar a ser o que sempre deveria ter sido:

Vida.

Vida de verdade.

Vida pra todos nós!

Edição n.º 1517. Imagem: Agnus, obra do artista Konstantin Korobov.

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