Pais que levam os filhos para os treinos, assistem competições e se preocupam quando eles se machucam durante os jogos, sem cobranças excessivas, são verdadeiros incentivadores. Entretanto, é comum observarmos pais gritando incessantemente nas arquibancadas ou familiares impondo horários rigorosos aos filhos. Esses comportamentos levantam questões sobre os limites do apoio que deve ser oferecido na jornada das crianças e jovens e nos fazem refletir sobre o papel dos familiares na vida esportiva dos pequenos.

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Para abordar o tema, o jornal O Popular conversou com a psicóloga Angelica Krzyzanovski, que explica como encontrar um equilíbrio no envolvimento dos pais e responsáveis na vida esportiva dos filhos. Conversamos também com a conselheira tutelar Patrícia Soares, para saber até que ponto a cobrança exagerada fere os direitos dos menores conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente; e ainda com o gestor e professor da Escola de Futsal AFFA Diamante Rodrigo Marin, que fala como esse tema vem sendo tratado entre os profissionais da escolinha e os pais.

A psicóloga Angelica afirma que casos de pais que impõem rotinas massacrantes aos filhos tem se tornado bastante frequentes. “Os pais colocam os filhos em alguma atividade esportiva, não porque é importante para o desenvolvimento da criança, mas porque não conseguiram ter essa oportunidade na infância, ou ainda porque tem o sonho do filho ser um jogador, não apenas de futebol, mas em várias modalidades. Como coordenadora do curso de Psicologia na Unibrasil, atendemos situações que envolvem psicologia do esporte, e percebo muitos pais com ânsia de ver o filho seguir o caminho que escolheram. Por isso, é comum vermos crianças que praticam uma atividade esportiva não porque para elas é interessante ou prazeroso, mas por insistência dos pais. Em se tratando de esporte de alto rendimento, a pressão é ainda maior, e gera ansiedade e até problemas de autoimagem na criança e no adolescente”, ilustra.

O professor Rodrigo concorda que na atual geração de pais, as cenas de cobranças excessivas em cima dos filhos, já a partir de 7 anos, tem se tornado cada vez mais comuns. “Na AFFA mesmo tivemos que mudar a forma de conduzir o ambiente de treino ou de jogo, sempre frisando que há limites. As próprias organizações de competições estão tendo esse cuidado, de prevenir e ao mesmo tempo coibir algumas atitudes de pais”, observa.

Segundo ele, a cobrança além do normal atrapalha o desenvolvimento da criança e do adolescente. “Primeiramente, porque a interferência dos pais nos treinamentos tira toda a autonomia dos profissionais, daqueles que realmente têm um conhecimento, e isso os impede de fazer um trabalho visando a formação da criança, como atleta e como indivíduo também. Muitos pais querem interferir no processo de conduta do filho, ditando o que ele tem que fazer ou não dentro de quadra. Estamos sempre conversando com os pais e com as próprias crianças, tentando coibir essa prática, para que isso não interfira no processo”, exemplifica.

A conselheira Patrícia afirma que essa questão está diretamente ligada ao Conselho Tutelar, no que diz respeito à garantia dos direitos da infância e da juventude. “Quando olhamos para as arquibancadas ou para as rotinas exaustivas, não estamos vendo apenas esporte ou dedicação. Muitas vezes, estamos testemunhando violações veladas do direito ao desenvolvimento pleno, ao brincar e à convivência familiar saudável. Como conselheira tutelar, graduada em educação física, estudante de Direito, e uma pessoa que carrega a bagagem do esporte, vejo esses cenários sob uma ótica muito clara: o limite entre o incentivo e a violência psicológica é a preservação da infância”, adverte.

PREJUÍZO EMOCIONAL

A ideia do esporte na vida infantil é trabalhar com desenvolvimento motor, prevenção e redução de ansiedade, prevenção de doenças mentais, doenças físicas, entre outras, conforme explica a psicóloga Angelica. No entanto, ela lamenta que este nem sempre é o objetivo de alguns pais, que acabam projetando seus próprios sonhos nos filhos, ocasionando problemas emocionais e até mesmo de identidade.

“A criança acaba entendendo que ela só tem valor se for bem naquele esporte, caso contrário, não tem valor e não é boa o suficiente. Isso gera grandes problemas de autoestima, autoimagem, e a criança pode acabar se lesionando, porque acaba sendo pressionada, acaba treinando de uma maneira inadequada ou com excessividade. Sem contar com a frustração, porque são incentivados a serem grandes desportistas, competir em campeonatos de alto nível, e sabemos que uma minoria consegue chegar a esse patamar”, reforça.

Patrícia complementa que a exigência desmedida e a obsessão pela vitória anulam o caráter lúdico e formativo do esporte, transformando o que deveria ser um espaço de socialização e saúde em um ambiente de estresse crônico. “No aspecto psicológico, a criança passa a vincular o afeto parental ao seu desempenho físico, gerando quadros severos de ansiedade, baixa autoestima e até síndrome do esgotamento profissional precoce.

Do ponto de vista do desenvolvimento motor e biológico, a especialização esportiva precoce e a carga massacrante de treinos desrespeitam as fases de maturação da criança, aumentando o risco de lesões graves e crônicas”, afirma. Além disso, salienta que essa pressão rouba o tempo do brincar, do descanso e do estudo, privando o indivíduo do direito ao desenvolvimento integral previsto na legislação.

De acordo com o professor Rodrigo, desde os anos iniciais a criança precisa vivenciar modalidades diferentes, fazer aquilo que ela gosta. “Os pais devem entender que a criança e o adolescente precisam vivenciar aquilo com alegria e não por imposição. Principalmente, devem colocar os filhos para treinar em locais com estrutura adequada e trabalho sério, ou seja, trabalho de formação. Infelizmente, existem locais que focam apenas na vitória das equipes, a qualquer custo, sem se preocupar com a formação do atleta e do indivíduo”, alerta.

Ele ainda reforça que está sempre orientando os pais sobre o papel que devem desempenhar, que é aplaudir e bater foto, não é cobrar arbitragem, e nem cobrar do filho o que ele poderia ter feito e não o fez. “Também não é cobrar o profissional, se ele está certo ou errado em uma conduta, em uma troca, em uma substituição. Tudo isso faz parte da rotina do esporte”, afirma.

Na psicologia, Angelica acredita que a pressão excessiva dos pais prejudica o desenvolvimento dos filhos, porém, quando a cobrança exagerada parte dos professores, que querem transformar os pequenos alunos em atletas de alto rendimento, cujos objetivos são diferentes dos das crianças, isso afeta o desenvolvimento. “Uma das coisas que trabalhamos no curso de psicologia esportiva, é ensinar aos treinadores a importância da comunicação não violenta, a ideia do incentivo sem pressão excessiva, sem gerar problemas de ansiedade, depressão, autoestima. Tanto as crianças, quanto os pais, e os treinadores devem manter uma relação saudável com essa questão de competição, de performance, principalmente envolvendo crianças. Os profissionais dessas áreas também devem ter uma noção clara do desenvolvimento humano, do que uma criança de 10 anos é capaz de fazer, e o que pode ser inviável para sua faixa etária”, pontua.

TENTATIVAS NÃO FALTAM

O gestor da escolinha AFFA Diamante diz que é praxe a realização de reuniões no começo das temporadas, com o objetivo de direcionar os pais para os objetivos das aulas e a metodologia que será aplicada. Bimestralmente, os pais recebem documentos sobre essa metodologia, para que tenham conhecimento do que os filhos estão aprendendo e possam acompanhar seu desenvolvimento.

“Também fizemos avaliações físicas, clínicas e de fundamentos com a criança para mostrar ao pai como o filho chega na escola, como ele está se desenvolvendo e como ele sai. Já formamos vários atletas que hoje estão jogando em times importantes. Nós falamos também sobre as condutas das crianças nas competições, conduta com os pais, adversários, arbitragem, e colegas de equipe. Tentamos orientar ao máximo, mas, infelizmente, muitas vezes acaba não surtindo efeito”, lamenta Rodrigo. Ele completa: “Ao perceber que existe a necessidade de uma intervenção maior, a AFFA traz um psicólogo para conversar com os atletas”.

FERE OS DIREITOS

A conselheira Patrícia Soares volta a reforçar o perigo de os pais projetarem nos filhos seus próprios sonhos. Para ela, esta tem sido uma realidade extremamente comum e preocupante, já que essa projeção, muitas vezes inconsciente, transforma o filho em um “segundo tempo” da vida dos pais.

“O desejo de ascensão social, o retorno financeiro ou a busca por status através do sucesso do jovem fazem com que as necessidades, os gostos e os limites da própria criança sejam completamente ignorados. Os pais deixam de enxergar o filho como um indivíduo com desejos próprios e passam a tratá-lo como uma extensão de suas próprias frustrações ou ambições”, observa.

Ela dá dicas de como os pais podem apoiar o filho no esporte, sem pressioná-lo na sua escolha, afirmando que o segredo está em mudar o foco do resultado para o processo. “Os pais apoiam de forma saudável quando escutam ativamente o filho para entender se ele ainda sente prazer naquela atividade; validam o aprendizado, a resiliência e o trabalho em equipe, desmistificando a obrigação de vencer; permitem que a criança experimente diferentes modalidades e, se for o caso, que ela tenha a liberdade de mudar de ideia ou desistir sem ser punida ou culpada por isso; quando lembram que o esporte na infância e na adolescência deve servir à vida da criança, e não a criança servir ao esporte.

“O esporte é um dos eixos mais potentes para a concretização dos direitos sociais previstos na nossa Constituição e no Estatuto da Criança e do Adolescente. Quando apoiado de forma saudável pela família, o esporte desenvolve a autonomia, a disciplina, o respeito às regras e a coletividade. Biologicamente, combate o sedentarismo e melhora a saúde física. Socialmente, funciona como um fator de proteção essencial contra a vulnerabilidade social, afastando o jovem de situações de risco e fortalecendo os vínculos familiares e comunitários. Nesse contexto, a atuação interdisciplinar é fundamental. O profissional de Educação Física e o técnico possuem o conhecimento científico para dosar as cargas de treino sem causar danos físicos. O psicólogo esportivo é uma ferramenta valiosa para ajudar a criança a lidar com as frustrações naturais da competição, blindando sua saúde mental contra pressões externas. Essa rede de apoio profissional ajuda, inclusive, a balizar as expectativas dos próprios pais, trazendo racionalidade e cuidado técnico para o processo”, cita.

Conforme o ECA, a conselheira cita alguns artigos que dão suporte a essa discussão:

Artigo 4º: Estabelece o dever do Estado, da sociedade e da família de assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.

Artigos 15 e 17 (Direito ao Respeito e à Dignidade): O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, das ideias e crenças. Obrigar uma criança a performar um papel que não é de sua escolha viola sua autonomia e integridade psíquica.

Artigo 16, Inciso IV: Garante o direito à liberdade, que compreende o aspecto de brincar, praticar esportes e divertir-se. Quando a atividade vira uma obrigação massacrante ou um trabalho infantil disfarçado, o direito ao lazer e ao brincar é violado.

Artigo 58: No processo educacional, e por extensão nas atividades culturais e esportivas, respeitar-se-ão os valores culturais, artísticos e históricos próprios do contexto social da criança e do adolescente, garantindo-se a estes a liberdade da criação e o acesso às fontes de cultura.

Artigo 232: Constitui crime “submeter criança ou adolescente sob sua autoridade, guarda ou vigilância a vexame ou a constrangimento”. Pais que gritam, humilham ou expõem os filhos publicamente por causa de desempenho incorrem em violação direta deste preceito.

“Nas situações em que mães ou pais obrigam crianças a rotinas exaustivas de desfiles, ensaios fotográficos ou treinos sem autorização ou contra a vontade do menor, o Conselho Tutelar atua aplicando as medidas de proteção cabíveis aos pais (Art. 129 do ECA), como o encaminhamento a cursos de orientação e o apoio psicológico, visando sempre restabelecer o direito fundamental da criança de ser, prioritariamente, criança”, orienta a conselheira.

Edição n.º 1936

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