Quanto mais velho eu fico, mais descubro uma verdade que teria me poupado algumas dores quando era mais jovem: ninguém é de ninguém.

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E graças a Deus por isso.

Porque toda vez que tentamos prender alguém dentro das nossas expectativas, acabamos sufocando aquilo que mais amamos.

O amor não é uma gaiola. Não é uma escritura registrada em cartório. Não é uma coleira espiritual.

Amar alguém é assistir aquela pessoa mudar diante dos nossos olhos e ainda assim continuar encontrando beleza nela.

Talvez seja por isso que eu ache curioso o Dia dos Namorados. Enquanto muita gente celebra a ideia de encontrar sua metade, eu penso que os amores mais bonitos que conheci foram justamente aqueles que me permitiram continuar inteiro. Mais livre. Mais eu.

O amor maduro não pede prisão. Pede presença. Não pede controle. Pede confiança. Não pede permanência. Pede escolha. Escolha diária. Escolha consciente. Escolha renovada.

E como meu jeito de organizar sentimentos sempre foi escrevendo, deixo aqui um poema que nasceu dessas reflexões. Uma pequena homenagem à impermanência, à liberdade e à estranha beleza de amar alguém que nunca para de se transformar.

VOCÊ NUNCA MAIS ME ENCONTRARÁ

Você nunca mais me encontrará. No mesmo toque, no mesmo sorriso, no mesmo café, no mesmo quarto, no mesmo parque, na mesma cama, no mesmo rosto, no mesmo jeito, na mesma piada, na mesma forma.

Quando você me olhar, eu já não sou o mesmo. E quando eu te olho, também já não te reconheço completamente. Porque você não é o mesmo. Mudou no seu jeito, na sua forma de ser, na sua respiração, no timbre da sua voz, na textura da sua pele, no seu modo de pensar, na velocidade dos seus passos, na perspicácia dos seus pensamentos.

E quanto mais eu e você mudamos, mais eu penso: Como eu te amo. Porque eu não me encanto na permanência. Eu me encanto na andança. Na mudança. Nas variações minhas e suas. Toda vez que eu te olho, encontro um novo jeito de te amar. Um novo jeito de te sentir. Um novo jeito de te perceber. Não importa quantos anos. Não importa quantas vidas. Não importa em quantos rostos ou em quantas histórias tenhamos caminhado juntos.

Seja livre. Seja diferente. Seja. Porque na arte do nosso amor nada é permanente. E nem precisa ser. Mas nesta travessia que agora fazemos juntos, que brindemos a eternidade do nosso olhar.

Edição n.º 1937

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