Crônica esportiva sobre a vitória da Espanha diante da Argentina na Copa do Mundo de 2026.

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Há finais que terminam quando o árbitro apita. Esta não. A decisão entre Espanha e Argentina, vencida pelos espanhóis por 1 a 0, na prorrogação, continua sendo jogada nas ruas, nos símbolos e nas histórias que cada seleção carregou até o estádio de Nova Jersey.

A bola, afinal, nunca entra em campo sozinha.

De um lado, a Argentina de Lionel Messi, em sua provável despedida das Copas, cercada pela aura do campeão de 2022 e pela mística de uma camisa acostumada a transformar sofrimento em épico. Mas também uma Argentina atravessada pelas tensões políticas do presente: o governo de Javier Milei, próximo de Donald Trump e alinhado a setores do governo de Benjamin Netanyahu, projetou internacionalmente uma imagem de nacionalismo agressivo, antipolítica social e pouca disposição para enfrentar o racismo quando ele aparece vestido de festa patriótica.

É preciso separar as coisas: uma seleção não é automaticamente um governo, assim como seus jogadores não são cópias perfeitas dos discursos oficiais de seu país. Mas o futebol, sobretudo em uma Copa do Mundo, não consegue impedir que a camisa seja lida como símbolo. E a camisa argentina chegou à final acompanhada de uma sombra: a dos cânticos racistas que já haviam provocado indignação internacional e a de um ambiente político em que a extrema direita tenta transformar identidade nacional em instrumento de exclusão.

Do outro lado estava a Espanha. Uma antiga metrópole colonial enfrentando, numa final mundial, uma Argentina que um dia foi sua colônia. A história poderia sugerir uma repetição do velho mapa: o centro europeu contra a periferia latino-americana. No entanto, em campo, a imagem se embaralhou.

A Espanha campeã teve o rosto de Lamine Yamal.

O atacante nasceu na Espanha, mas sua história não cabe na ideia estreita de uma Espanha homogênea. Filho de pai marroquino e mãe da Guiné Equatorial, muçulmano e criado em Rocafonda, bairro popular de Mataró, Yamal representa uma sociedade formada por migrações, misturas e disputas de pertencimento. A antiga metrópole apareceu, dessa vez, com um dos rostos que a velha lógica colonial costumava empurrar para a margem.

Aos 19 anos Yamal é uma estrela mundial. Mas não abandona o bairro. A cada gol, faz com as mãos o número 304 — referência ao código postal de Rocafonda, cujo CEP completo é 08304. O gesto é pequeno, quase infantil. Entretanto, no futebol, pequenos gestos podem carregar cidades inteiras.

O 304 diz: eu vim daqui.

Não de um palácio, não de uma avenida iluminada, não de uma vitrine internacional. Vim de um bairro pobre, multiétnico, onde crianças aprendem a driblar entre bancos, muros e falta de oportunidades. Quando Yamal ergue os dedos, não comemora apenas o gol. Recoloca Rocafonda no mapa. O bairro deixa de ser uma nota de rodapé e passa a ser lembrado no instante mais fotografado do planeta.

Na final, ele usou novamente a faixa com referências às suas raízes. Antes da partida, também foram divulgadas imagens que associavam sua presença à bandeira palestina. A informação precisa ser checada com rigor editorial e documental, mas a repercussão revela algo importante: para muitos torcedores, Yamal já não é apenas o menino prodígio do Barcelona. Ele se tornou uma tela sobre a qual se projetam identidades, solidariedades e desejos de justiça.

Enquanto isso, imagens das comemorações espanholas circularam entre palestinos, inclusive em áreas devastadas pela guerra. Murais improvisados, pinturas sobre ruínas e celebrações em meio à destruição deram à vitória espanhola um significado que ultrapassou o futebol. Não porque uma taça possa reconstruir uma casa ou interromper uma guerra, mas porque, para quem vive sob escombros, qualquer imagem de alegria compartilhada pode funcionar como uma espécie de desobediência.

A Palestina, nesse contexto, não apareceu apenas como tema geopolítico. Apareceu como pergunta: quem tem direito à festa? Quem pode comemorar? Quem é autorizado a existir no campo, na arquibancada e na história?

Há relatos de que, em Israel, parte dos torcedores preferia a Argentina. A preferência pode ser lida como consequência das alianças políticas e simbólicas que aproximam setores israelenses da extrema direita argentina e do trumpismo. Mas também aqui é necessário cuidado: governos, torcidas e sociedades não são blocos uniformes. O jornalismo deve registrar as conexões sem transformar milhões de pessoas em uma caricatura.

A final foi decidida por Ferran Torres, depois de 106 minutos de resistência argentina. A Espanha controlou a partida, trocou passes, ocupou espaços e soube esperar. A Argentina ainda perdeu Enzo Fernández, expulso no fim do tempo regulamentar. Messi, protegido pela memória de tantos milagres, desta vez não encontrou a última resposta.

Mas talvez a resposta não estivesse nele.

Estivesse no garoto de Rocafonda, muçulmano, filho de imigrantes, que carregou para a maior decisão do futebol uma inscrição simples: 08304. O código de uma periferia atravessou oceanos, chegou ao estádio e terminou inscrito na memória de uma Copa.

A Espanha venceu a Argentina. Porém, no plano simbólico, a vitória foi menos sobre uma nação e mais sobre uma ideia antiga de nação. A ideia de que pertencimento depende de sangue, origem ou pureza. Yamal mostrou o contrário: às vezes, a identidade cabe num bairro; às vezes, cabe num gesto; às vezes, cabe em três números — 304 — levantados depois de um gol.

E naquela noite, enquanto a taça subia, Rocafonda também subiu.

Edição n.º 1942

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