Uma projeção do Ipardes (Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social), divulgada este ano, trouxe um número que chamou minha atenção. Até 2050, Curitiba deve perder cerca de 97 mil habitantes. Ao mesmo tempo, cidades da região metropolitana, como Araucária, seguem crescendo acima da média do estado.

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Nos últimos dois anos, Araucária registrou um dos maiores índices de crescimento populacional do Paraná, 5,52%, segundo dados do IBGE. Não é um caso isolado. Pesquisadores chamam esse movimento de desmetropolização: gente saindo das capitais em direção a cidades médias da própria região metropolitana.

Durante décadas, a lógica foi inversa. As capitais cresciam, absorviam gente do interior, concentravam emprego e serviço. Curitiba não foi exceção. Mas esse ciclo parece estar chegando a um ponto de inflexão.

O que explica essa mudança não é fuga da capital, é escolha. Segundo o Ipardes, o movimento é puxado principalmente por migrações de curta distância, famílias que trabalham em Curitiba, mas decidem morar em cidades vizinhas. Ganham espaço, ganham qualidade de vida, sem abrir mão da proximidade com a capital.

Na minha leitura, isso é o resultado de uma equação que mudou. Curitiba continua sendo o centro econômico da região, mas o custo de morar ali, somado à rotina mais pesada, fez com que outras variáveis passassem a pesar mais na decisão de onde viver. Tempo de deslocamento, custo de moradia, sensação de pertencimento a uma cidade em escala mais humana.

Um dado chama atenção dentro desse movimento. Entre cidades da região metropolitana, Fazenda Rio Grande registrou o maior crescimento populacional do Paraná nos últimos dois anos, 8,49%, segundo o IBGE. Araucária cresceu 5,52% no mesmo período, um índice forte, mas atrás de uma cidade vizinha que, historicamente, teve menos tradição industrial e menos infraestrutura consolidada que a nossa.

Isso me faz uma pergunta incômoda. Se Araucária tem uma base industrial mais madura, gera mais emprego local e conta com um planejamento urbano mais estruturado, por que ainda não é o principal destino desse movimento na região?

Minha leitura é que Araucária ainda carrega, mesmo entre quem mora fora, a imagem de cidade industrial, de cidade para trabalhar. A ideia de morar aqui por escolha, e não por proximidade com o emprego, ainda não se consolidou no imaginário de quem está decidindo para onde ir.

Isso é o tipo de percepção que muda com o tempo, mas não muda sozinha. Ela muda quando a cidade mostra, na prática, que oferece qualidade de vida, segurança e custo de vida competitivo, os mesmos fatores que já atraem gente para outras cidades da região.

A oportunidade, por outro lado, é clara. Araucária tem hoje as condições estruturais para ser o próximo destino natural desse movimento. Falta essa possibilidade virar percepção, e a percepção virar decisão de compra.

Se a tendência do Ipardes se confirmar, o mapa da região metropolitana de Curitiba vai parecer bem diferente daqui a alguns anos. O que isso diz sobre o futuro de Araucária é simples: a cidade tem a base para se tornar o principal destino desse movimento, mas isso só vai acontecer se a percepção de quem está de fora mudar tão rápido quanto os números já estão mudando.

Edição n.º 1944

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