Ela começou a engolir o que sentia só para evitar brigas. Abandonou os lugares de que gostava depois de ouvir que ‘não ficava bem’ frequentar aqueles ambientes. Teve as escolhas questionadas, a rotina vigiada e, sem perceber, viu sua liberdade encolher. Demorou até entender que aquele zelo todo não era proteção – era domínio.

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A violência contra a mulher raramente começa com um estalo. Ela se infiltra no cotidiano em forma de pequenas proibições, piadas, chantagens e constrangimentos silenciosos. Acontece em casa, no namoro, no trabalho ou no grupo de amigos. Quando ceder vira a única estratégia para manter a paz, o sinal vermelho já acendeu.

Em agosto, o tema ganha as ruas com a campanha Agosto Lilás, mas o recado vale para o ano todo: afeto nenhum dá o direito de controlar ou anular alguém. Laços de sangue ou uma certidão de casamento tampouco autorizam o desrespeito.

Essa conta também precisa ser cobrada dos homens. Como a grande maioria das agressões é praticada por eles, não existe saída sem desconstruir a ideia de que masculinidade tem a ver com posse, força ou controle. Respeitar significa aceitar o ‘não’, reconhecer a autonomia do outro e, acima de tudo, romper com a naturalização de atitudes machistas entre amigos, no trabalho e nos espaços de convivência.

Em Araucária, a campanha Agosto Lilás mobiliza a Rede de Enfrentamento à Violência contra a Mulher, composta por diferentes órgãos e instituições dos Poderes Executivo e Legislativo municipais, do Poder Judiciário, do Governo do Estado e da sociedade civil, que atuam de forma integrada em ações de prevenção, conscientização e fortalecimento da rede de proteção.

Identificar os sinais logo no início pode impedir que o controle silencioso avance para outras formas de violência. Frases como ‘não quero que você use essa roupa’, ‘você não precisa trabalhar’ ou o afastamento forçado dos amigos não são provas de amor: são formas de limitar a liberdade. Perceber isso a tempo e buscar apoio é o primeiro passo para retomar o controle da própria vida.

Em qualquer situação de violência, denuncie. Em Araucária, é possível pedir ajuda pelo 153 (Guarda Municipal), 190 (Polícia Militar) ou pelo 180 (Central de Atendimento à Mulher).

Uma ligação pode salvar vidas.

Edição n.º 1945

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