O chamado para a Umbanda nem sempre chega como um raio. Às vezes, ele vai se anunciando devagar, através de sinais, encontros e experiências que fazem a gente compreender que a espiritualidade não é apenas algo para ser vivido individualmente.

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Foi assim com Pai Paulo de Xangô.

Sua caminhada começou como filho de santo, aprendendo que espiritualidade exige humildade, responsabilidade e, acima de tudo, disposição para servir. Em 14 de maio de 2016, recebeu sua coroação como Pai Paulo de Xangô, dentro dos rituais de Almas e Angola e Cabula. Pouco mais de um mês depois, em 28 de junho, nascia oficialmente a Tenda de Umbanda Filhos de Aruanda – TUFA.

Mas aquela Casa não nasceu apenas de uma vontade humana.

Foi fundada por Pai Paulo, Mãe Letícia de Oxum e mais cinco filhos, sob a ordem e autorização espiritual de Pai Serafim do Congo, Preto Velho regente da Casa e uma das grandes referências dessa caminhada.

A TUFA começou pequena, nos fundos de uma loja de informática. Eram apenas sete pessoas na corrente. O espaço era simples, mas havia fé suficiente para acreditar que dali poderia nascer algo maior.

E nasceu.

Primeiro no bairro Tindiquera. Depois, no bairro Iguaçu, onde a Casa encontrou espaço para crescer e construir uma relação cada vez mais profunda com a comunidade.

Em 3 de setembro de 2016, veio uma nova sede. Em pouco tempo, ela também ficou pequena. Até que, em 13 de julho de 2019, a TUFA chegou ao endereço atual.

Hoje, a Casa consegue receber mais de 150 pessoas em uma única Gira.

Quando Pai Paulo olha para esse número, porém, não enxerga apenas crescimento. Enxerga responsabilidade.

Porque um terreiro deixa de ser apenas um lugar de culto quando alguém atravessa sua porta carregando uma dor e encontra acolhimento.

Na TUFA, os atendimentos espirituais são gratuitos. Pessoas chegam procurando orientação, esperança, escuta e, muitas vezes, simplesmente alguém que as receba sem julgamento.

É nesse ponto que Pai Paulo resume aquilo que considera essencial em sua Casa: Fé, Amor, Humildade e Caridade.

A Umbanda praticada pela TUFA é denominada Umbanda Almas de Angola e Malei, fundamentada nas tradições de Almas e Angola, da Cabula, em elementos das tradições Bantu e também na Quimbanda tradicional. Uma identidade religiosa construída ao longo da própria caminhada da Casa, mantendo a tradição africana como princípio.

E essa identidade também passa pela coragem de assumir aquilo que se é.

A TUFA não utiliza santos católicos em seu Congá. Para Pai Paulo, não é mais necessário recorrer ao sincretismo para esconder ou proteger uma tradição de matriz africana.

É uma escolha que diz muito sobre o tempo em que vivemos: conhecer a própria história também é uma forma de resistência.

Mas nem sempre foi fácil.

A desinformação ainda produz preconceito. A intolerância religiosa já chegou ao terreiro. Em uma das situações mais tristes, pedras foram jogadas contra o telhado da Casa.

Mesmo assim, Pai Paulo não desistiu.

Porque, para ele, manter uma Casa de Umbanda aberta em Araucária significa também dizer que ninguém deveria precisar esconder sua fé para ser respeitado.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores contribuições dos terreiros para a cidade.

Eles não são apenas espaços religiosos. São lugares onde sobrevivem a oralidade, a música, os conhecimentos ancestrais, a memória, a cultura e o sentimento de pertencimento. São comunidades formadas por pessoas que trabalham, estudam, criam filhos, enfrentam dificuldades e também constroem a história de Araucária.

Pai Paulo acredita que a cidade ainda precisa avançar na valorização dessas Casas.

Não como privilégio.

Como direito.

Direito de existir. Direito de professar a própria fé. Direito à segurança, ao respeito e ao reconhecimento de uma cultura que também faz parte da história brasileira.

A trajetória da TUFA é, portanto, muito maior do que a história de um terreiro que saiu de sete filhos e chegou a uma Casa capaz de receber mais de 150 pessoas em uma Gira.

É a história de uma espiritualidade que cresceu sem abandonar suas raízes.

De uma Casa que escolheu não esconder sua ancestralidade.

E de pessoas que entenderam que, antes de qualquer título, coroação ou posição dentro da religião, existe uma palavra que resume a missão de quem coloca a espiritualidade a serviço do outro:

Servir.

Talvez seja por isso que, quando Pai Paulo fala sobre o futuro da TUFA, ele não fala apenas sobre paredes maiores ou uma Casa ainda mais cheia.

Ele fala sobre formar pessoas capazes de continuar a caminhada.

Porque uma Casa de Axé não pertence somente a quem a conduz hoje.

Ela pertence também aos que vieram antes.

Aos que estão presentes.

E aos que ainda chegarão.

Edição n.º 1946

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