Dr. Emerson Albertasse: E se quem você ama se tornasse um estranho?
A coluna do Dr. Emerson Albertasse usa a história de Dona Helena para explicar as três fases da Doença de Alzheimer e a importância do diagnóstico precoce.
Afinal, o que resta quando a memória vai embora?
Dona Helena sente dificuldade de lembrar o que fez pela manhã e se perde com facilidade nas ruas do próprio bairro. Pergunta repetidamente qual é a data de hoje, angustiada por não conseguir se situar no tempo. As palavras travam na garganta antes de concluir o raciocínio, e a ansiedade se torna constante.
Cinco anos se passaram. O tempo apagou partes fundamentais da sua história. Dona Helena já não se lembra do ano em que se casou nem do rosto do marido nas fotos. A máquina de costura, que usou com maestria por décadas, virou um objeto estranho. Não consegue se vestir sozinha, confunde parentes com desconhecidos e perambula pela casa à noite, agitada, misturando o passado com o presente.
Mais cinco anos se passam. A perda da autonomia é total. Hoje, Dona Helena depende de auxílio para as necessidades mais básicas: precisa ser alimentada na boca, trocada e banhada no leito. Perdeu a capacidade de falar, emitindo apenas sons incompreensíveis. O corpo está enrijecido e confinado a uma cama. A mulher ativa e independente de antes desapareceu.
Você conhece alguém passando por esse processo?
A história de Dona Helena ilustra, de forma dolorosa, o avanço das três fases da Doença de Alzheimer — patologia neurodegenerativa progressiva e principal causa de demência no mundo, respondendo por até 80% dos casos.
Setembro é o mês da cor roxa, dedicado à conscientização sobre o tema. No mundo, uma nova pessoa desenvolve demência a cada três segundos, e estima-se que até 75% dos pacientes vivam sem diagnóstico formal. A idade é o maior fator de risco: a prevalência dobra a cada cinco anos após os 65 anos. Além disso, dois terços dos pacientes são mulheres.
Embora não haja cura, o controle de hipertensão, diabetes, sedentarismo e tabagismo ajuda a proteger o cérebro. Com a doença instalada, o acompanhamento médico com medicamentos específicos auxilia no controle dos sintomas. Esse cuidado deve ser aliado à fisioterapia, reabilitação cognitiva, adaptação da casa e suporte aos cuidadores. O diagnóstico precoce é a chave para garantir dignidade ao paciente e à família.
Edição n.º 1951
