O Brasil não tem uma religião única. O Brasil tem povos diversos e ancestralidades singulares no campo da fé.

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O Brasil que venceu com a reeleição do presidente Lula, neste domingo, é o Brasil que pode possibilitar às religiões coexistirem de forma harmônica. É o Brasil que permite tanto à freira acender uma vela para Maria de Nazaré quanto à mãe de santo acender uma para Maria Padilha do Cabaré!

É a mesma vela, é o mesmo gesto, mas nem sempre o mesmo direito.

O bonito de estar no Brasil é perceber que, em um altar, Nossa Senhora Aparecida ilumina a vida do gaúcho ao sertanejo, de ponta a ponta deste país. Em outros cantos e templos, nos terreiros, Exu protege a mãe que embala o filho para dormir e também abençoa a juíza que decide sobre a pena mais severa para um feminicídio.

Não é sobre onde a pessoa está ou o que exerce profissionalmente. É sobre a liberdade de exercer sua fé, de ser espiritualizado sem julgamentos de quem quer que seja.

Nas palavras de Pablo Marçal, durante uma entrevista a Luiz Bacci, na campanha eleitoral, “todo macumbeiro é um derrotado”. Sinto informar, Pablo: a macumba venceu! E não foi apenas uma disputa nas urnas. Venceu o direito de existir, de rezar e de ocupar espaços sem precisar pedir desculpas pela própria fé.

Nós, macumbeiros do Brasil inteiro, buscamos respeito. E, quando ele não vem espontaneamente, temos uma Constituição para defendê-lo e uma reza forte para sustentar nossa caminhada!

Fazemos uma revolução! Vamos para as ruas!

Se o juiz da Terra não reconhece o direito à nossa liberdade, pedimos, sim, a Xangô, numa quarta-feira, com um amalá (oferenda de quiabo) aos seus pés. Batemos paó e pedimos que a luz da verdade ilumine os caminhos da Justiça.

E eu acredito que Xangô ouviu a oração do povo de axé!

Quem venceu as eleições não foi o candidato que terminou o primeiro turno na frente. Foi aquele que, no segundo turno, conquistou a maioria dos votos e foi reeleito presidente. E, para muitos de nós, essa vitória também carrega a esperança de um Brasil em que os povos de terreiro possam viver com dignidade e respeito.

Isso é sucesso!

Acredito que Xangô, orixá da Justiça, ainda verá muitas cobranças por toda a extensão dos danos causados aos nossos povos religiosos. Minha fé me faz acreditar que a história não termina na apuração dos votos. A luta por justiça continua.

Quem não deve, não teme!

Quando a Justiça determinou que Lula entregasse seu passaporte, em 2018, ele o fez. Depois, apresentou-se para cumprir a pena e permaneceu preso por 580 dias. Anos mais tarde, o Supremo Tribunal Federal anulou condenações da Lava Jato por questões jurídicas. A história desse processo é complexa, mas uma coisa é certa: o Brasil voltou a escolhê-lo nas urnas, pela quarta vez.

Quem tem a verdade não precisa fugir do debate. E quem tem santo forte não abandona a luta!

Eu rezo por um Brasil que respeite todas as crenças. Desejo que toda língua que fere, demoniza ou amaldiçoa a fé de alguém encontre a resposta da Justiça e, para quem acredita, também a cobrança de Xangô.

Que os crimes de intolerância religiosa sejam investigados e punidos conforme a lei. Que ninguém precise esconder seus guias, seus orixás, suas imagens ou suas orações por medo de ser quem é.

E que as portas da cadeia estejam esperando aqueles que cometerem crimes em nome do preconceito!

EXU E NOSSA SENHORA APARECIDA VENCERAM NAS URNAS. QUE A LIBERDADE RELIGIOSA TAMBÉM VENÇA NAS RUAS!

Edição n.º 1956

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