Ocaso ocorrido nesta semana no BBB 26 trouxe novamente ao centro do debate público a discussão sobre importunação sexual, consentimento e limites. A situação, amplamente repercutida fora da casa, levantou questionamentos sobre comportamentos que muitas vezes são relativizados ou interpretados de forma equivocada, especialmente quando acontecem em ambientes de exposição, convivência intensa ou sob o argumento de “mal-entendidos”.

O caso ocorreu quando Pedro acompanhou Jordana até a despensa e, enquanto ela procurava um babyliss, em um ponto cego das câmeras, aproximou-se, segurou seu pescoço e tentou beijá-la. Jordana recusou a investida. Após a negativa, o participante se afastou e afirmou ter interpretado de forma equivocada os sinais. Abalada, Jordana deixou o local e passou a relatar o ocorrido a outros participantes.

Pedro a seguiu até que uma colega interveio. Ao perceber que o episódio seria comunicado à produção e poderia resultar em punição, ele decidiu desistir do programa, evitando a expulsão que seria aplicada na sequência.

Para esclarecer o assunto, a psicóloga Simone Eloise Vicenti, coordenadora do Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM) de Araucária, explica que a violência ocorre sempre que não há consentimento claro e, ainda assim, existe insistência em se aproximar, tocar, tentar beijar ou constranger outra pessoa. Não se trata de interpretação subjetiva, mas do desrespeito a limites explicitados por palavras, gestos ou reações. Quando uma mulher diz “não”, demonstra desconforto, tenta se afastar ou apresenta sinais visíveis de constrangimento, qualquer continuidade da abordagem já caracteriza importunação sexual. O consentimento, segundo a psicóloga, precisa ser explícito, contínuo e livre, não podendo ser presumido a partir do silêncio, da hesitação ou de reações de medo ou paralisação.

A psicóloga aponta que alguns comportamentos são recorrentes nessas situações, como insistir após uma negativa, invadir o espaço físico, encurralar a mulher ou tentar se aproveitar de momentos de maior vulnerabilidade, como isolamento, consumo de álcool ou cansaço. Outro aspecto frequente é a tentativa de inverter a responsabilidade após o ocorrido, com justificativas como “entendi errado”, “achei que ela deu abertura” ou “fiz o que estava com vontade”. Essas falas não alteram o fato de que o limite foi ultrapassado.

Para as mulheres, a psicóloga reforça que a responsabilidade nunca é da vítima. Se a situação gerou desconforto, confusão ou sensação de invasão, isso já é motivo suficiente para ser levado a sério. Confiar na própria percepção é um passo importante. Buscar apoio de pessoas de confiança ou de serviços especializados, registrar o ocorrido e acessar os canais de denúncia fazem parte do exercício de um direito, respeitando o tempo, a história e as decisões de cada mulher.

A coordenadora do CRAM destaca ainda que a conversa precisa incluir os homens. O desejo não autoriza nenhuma ação sem consentimento. A ideia de que “achou que ela quis” não justifica abordagem nem contato físico. Insistir após uma negativa configura violência. Responsabilidade emocional, respeito aos limites e a capacidade de ouvir o “não” fazem parte de relações mais saudáveis.

“Em Araucária, a maior parte dos casos de importunação sexual ocorre em vias públicas e no transporte público, geralmente praticados por pessoas desconhecidas”, afirma o Delegado da Delegacia da Mulher de Araucária, Eduardo Kruger Costa.

Caso a vítima identifique que passou por uma situação de importunação sexual, é essencial que preserve e reúna possíveis provas, como mensagens, fotos, vídeos, identificação ou qualificação de testemunhas, entre outros elementos, e procure a Polícia Civil do Paraná para o registro do boletim de ocorrência o quanto antes, possibilitando que a equipe de investigação realize diligências para identificar o autor da conduta.

Além disso, nos casos de flagrante, é indispensável que a vítima acione imediatamente a Polícia Militar, pelo telefone 190, ou a Guarda Municipal, pelo número 153.

“A Delegacia da Mulher de Araucária encontra-se à disposição para o atendimento de mulheres vítimas de importunação sexual e conta com uma equipe qualificada e preparada para prestar um atendimento humanizado, respeitoso e acolhedor”, finaliza o Delegado.

Edição n.º 1499. Maria Antônia.