Dois dos pilares sagrados de nossa democracia são a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão. Ambos os direitos, no entanto, precisam ser exercidos com responsabilidade. Mas o primeiro, além de responsabilidade, precisa ser exercido com ética e propósito.

Acompanhando a cena araucariense há quase trinta anos, O Popular tem uma preocupação especial com a forma de abordagem de fatos que acontecem em nossa cidade. Isto porque nem tudo é notícia. Por mais que desperte a curiosidade alheia, cabe ao bom jornalista e ao bom jornalismo separar o joio do trigo, a matéria do boato, a verdade da fakenews e por aí vai.

Por exemplo, situações que acontecem em espaços públicos têm o condão de ser considerado uma possível pauta. Aí se encaixam casos como brigas de trânsito, acidentes, operações policiais e coisas do gênero. Quando os personagens dos acontecimentos são pessoas públicas (políticos, artistas, servidores públicos no exercício da função e coisas do tipo) é possível flexibilizar um pouco a análise da pauta. Afinal, como diz o ditado, pessoas públicas não se pertencem. Isto, porém, não quer dizer que a vida e a intimidade desses sujeitos possam ser devastadas e expostas sem checagem.

A curiosidade é algo inerente ao ser humano. Mesmo aqueles que publicamente dizem não querer saber uma fofoca, muitas vezes, em seu íntimo, querem sim. E isso é algo normal. Ao jornalista, ao veículo de comunicação, no entanto, é preciso cautela com isso. Pois a imprensa não deve expor a intimidade alheia se aquilo que está sendo feito nessa intimidade não é ilegal.

Araucária, aliás, historicamente, é recheada de casos em que adversários ameaçam expor a intimidade de pessoas com cargos públicos na busca de algum tipo de vantagem. O jornalista sério, no entanto, não cai nessa. Ele pode até analisar o material, mas se nele não houver nada que signifique o cometimento de um crime ou de alguma irregularidade, estamos falando de conteúdo irrelevante jornalisticamente.

E em se tratando da administração pública, relevante seria se uma garota de programa fosse nomeada para ocupar um cargo em comissão na Prefeitura sem precisar “dar expediente” e trabalhar em prol da coletividade araucariense, por exemplo.

Relevante seria, por exemplo, se o Ministério Público tivesse denunciado esse ou aquele gestor por ter montado uma rede de prostituição envolvendo menores e/ou maiores de idade para satisfazer a própria lascívia, se aproveitando da estrutura da Prefeitura e do poder que o cargo lhe conferia para nomear e/ou exonerar cargos em comissão para manter hígido esse esquema.

E estamos aqui diante de apenas dois exemplos de pautas que merecem ou mereceriam a intervenção de um pilar tão sagrado de nossa democracia que é a imprensa.

Pensemos todos nisso e boa leitura.

Edição n.º 1508.