Abril Azul é o mês Mundial de Conscientização do Transtorno do Espectro Autista. Para se ter uma dimensão local, em Araucária temos aproximadamente 1.300 pessoas em acompanhamento na rede municipal. Seguindo a proporção mundial, a estimativa é que o município possua cerca de 4.500 autistas — muitos se tratam em Curitiba e muitos seguem ainda sem o diagnóstico.

Recebi a difícil missão de escrever sobre o TEA. Mas escrever o quê? Criticar a administração pública e suas deficiências? Um texto técnico falando de números? Um texto sobre direitos? Quem sabe sobre conscientização? Mitos e verdades? Sinceramente, tudo parece ser sempre o mesmo.

Decidi buscar quem vive essa realidade 24 horas por dia: as mães. Após ler muito e coletar o relato de oito mães araucarienses, cheguei à conclusão de que eu não sei escrever por elas. Por isso, hoje, cedo este espaço para que elas falem de si mesmas, de suas dores, lutas e amores.

A jornada dessas mulheres começa com a compreensão de que o caminho será diferente. Elas sabem que a verdadeira conscientização começa em casa, mas precisa transbordar para as ruas da nossa cidade.

Uma delas resume: “Ser mãe atípica é desafiador sendo em Araucária ou em qualquer lugar, mas quando há conscientização ao redor, a caminhada se torna mais leve.”

No entanto, a leveza é frequentemente substituída pela batalha. A saga por saúde e atendimento especializado é o primeiro grande obstáculo em Araucária, seja no sistema público ou no privado. Os relatos expõem as feridas da espera: “No SUS, impossível conseguir terapias, anos na fila de espera e não tem a terapia ABA, que é essencial no tratamento…”. Outra mãe relata o desgaste da busca na rede privada: “No nosso caso, estamos há seis anos indo pra CTBA para realizar as terapias, porque a Unimed não credencia nenhuma clínica aqui em Araucária. É um desgaste sem fim…”

Quando conseguem acesso, a gratidão se mistura à necessidade de mais recursos. O CMAEE TGD (Centro Municipal de Atendimento Educacional Especializado) de Araucária é citado como um refúgio, mas que precisa urgentemente crescer. Uma mãe destaca: “Uma coisa muito boa que temos em Araucária é o TGD, que atende crianças, porém teria que ter mais unidades. Só tem uma”. Outra reforça a qualidade da equipe, mas a escassez de braços: “…é nítido os médicos que atendem os autistas com um olhar carinhoso… precisava de mais profissionais pra atender no CMAE TGD, não conheço 1 mãe que não elogie o trabalho do pessoal do TGD…”

A urgência por respostas não combina com a burocracia, forçando essas mães a adotarem posturas que não desejam para garantir o básico: “…para conseguir o mínimo a mãe precisa ser vista como chata ou barraqueira…”. O apelo é claro: “…não deixem faltar a continuidade nos tratamentos”.

Depois da saúde, o desafio se muda para a sala de aula. A inclusão é um direito constitucional, mas na prática araucariense, a dor da exclusão ainda é real: “As escolas, em geral, não estão preparadas para educar crianças autistas. Muitas acreditam que inclusão é apenas colocar a criança autista junto com as demais, sem oferecer suporte adequado”. Os pedidos são diretos: “…lutas diárias pelas terapias, neurologista, falta de senso de uma verdadeira inclusão nas escolas e comunidade…” e um grito de basta: “…Não ao bullying…”.

Por isso, este Abril Azul não pode ser apenas uma data no calendário. Ele precisa gerar mudanças profundas no poder público e na sociedade. As mães alertam para a superficialidade das ações: “As ações são muito superficiais, como eventos pontuais no mês de abril, sem impacto real na vida das famílias.

Falta envolvimento verdadeiro do poder público”. Afinal, “…as consequências das falhas, nós familiares sentimos dia a dia em casa, na sociedade. Longe dos holofotes…”.

Elas não pedem favores, exigem dignidade. Uma frase ecoa como um mantra de batalha: “DIREITO NÃO É FAVOR”.

Ao fim de tudo, longe dos diagnósticos e das leis, existe a criança. Uma mãe define com doçura: “…o TGD, que é uma benção…”. Outra descreve a complexidade dessa vivência: “A criança autista é maravilhosa.

Mas o autismo traz desafios muito difíceis, que machucam e impactam toda a família”.

E quando o dia termina e a luta cansa, o maior medo de todas elas vem à tona, uma pergunta que paira no ar e que nossa cidade precisa ajudar a responder: “…o que será dos nossos filhos quando não estivermos mais aqui?”.

Que este Abril Azul em Araucária seja menos sobre a cor azul e mais sobre ouvir, acolher e agir por essas vozes.

Edição n.º 1510.