É cada vez maior o número de mulheres ocupando espaços em profissões que, durante muito tempo, foram dominadas por homens, inclusive com muitas delas ocupando cargos de liderança. Esse avanço merece ser reconhecido e é resultado de mudanças sociais, educacionais e também dos esforços de muitas mulheres que abriram caminhos ao longo das últimas décadas.

O Jornal O Popular conversou com duas mulheres araucarienses que se encaixam no perfil. Elas relataram os desafios e superações para conquistar espaço no mercado de trabalho, e mostraram de que maneira ajudaram a transformar a cultura de seus ambientes profissionais.

Luany Alves da Silva, 35 anos, é Coordenadora de Logística na Arcelormittal Gonvarri Produtos Sid. S/A – AMG. Ela lidera um time de 34 pessoas, que se dividem entre setores operacionais e administrativos (escritório), e deste total, apenas 5 são mulheres. Ela conta que no começo, quando assumiu um cargo de liderança, houve momentos em que precisou ser mais firme para estabelecer seu espaço e garantir o respeito, especialmente em ambientes predominantemente masculinos.

“Meu foco sempre foi agir com profissionalismo, competência e clareza, mostrando que liderança não tem gênero — tem postura, responsabilidade e conhecimento, inclusive essa é uma ideia que prego fortemente. Já me deparei também com situações claras em que alguns homens demonstraram resistência em receber orientações minhas, por eu ser mulher. Nesses casos, procurei lidar de forma equilibrada: mantendo diálogo aberto, reforçando processos e metas, e deixando claro que todos estávamos ali pelo mesmo objetivo”, declara.

Com o tempo, Luany foi percebendo que a consistência do seu trabalho foi o que solidificou o respeito da equipe. Hoje, ela percebe que esses desafios contribuíram muito para sua maturidade como líder e para desenvolver um estilo de gestão seguro, colaborativo e assertivo. Obviamente que a maturidade emocional a ajudou muito nesse processo.

A araucariense ingressou na Gonvarri em agosto de 2008, mas começou de baixo, como jovem aprendiz, através de um programa de aprendizagem do SENAI, em parceria com o município. Passou a estagiária e efetivada em 2012. “De lá pra cá, atuei em alguns setores, mas me encontrei profissionalmente na área de Logística, onde cresci atuando no gerenciamento dos processos logísticos (Inbound, Warehouse e Outbound), como Analista de Transporte Sênior, posteriormente Supervisora dos processos internos e externos de logística, até a posição atual, de Coordenadora, onde gerencio o fluxo operacional da cadeia logística dos materiais produtivos e o controle de materiais não-produtivos. Sou formada em Administração, com duas especializações: Logística e Gestão Econômica e Financeira. E atualmente estou em uma nova especialização pela PUC-PR: Lean Six Sigma Black Belt”, cita.

A experiência acumulada nas funções que ocupou dentro da empresa faz com que hoje em dia Luany lidere sua equipe de forma natural. Ela acredita que uma liderança eficaz não depende de gênero, mas de clareza, respeito e competência. “Com o tempo, percebi que quando estabelecemos objetivos, processos bem definidos e uma comunicação transparente, as barreiras diminuem e o foco passa a ser o trabalho e os resultados. É claro que ainda existem diferenças de percepção e perfis comportamentais, assim como é notório que, enquanto escritórios e áreas administrativas avançam mais rapidamente em diversidade, o chão de fábrica ainda enfrenta desafios estruturais, e por isso a sensibilidade do líder é importante, assim como o comprometimento da companhia em mudar essas percepções (e vejo que a AMG tem trabalhado muito forte nesse sentido)”, menciona.

Por fim, a Coordenadora lembra que é importante que o gestor tenha postura profissional, coerência e equilíbrio para que todos entendam que, independentemente do gênero, estão alinhados por um mesmo propósito. “E hoje vejo que não existe (ou não deveria existir) o ‘jeito masculino’ ou ‘jeito feminino’ de liderar. Existe o jeito de cada líder perceber e direcionar seu time, e isso independe de gênero”.

A postura e a capacidade de liderar da Luany a tornaram embaixadora de um programa dentro da AMG, focado nas mulheres, o SheSteel, que engloba todas as plantas Gonvarri do mundo e tem como objetivo fomentar cada vez mais a participação feminina no mundo corporativo e também em cargos de liderança.

“Tenho como foco me tornar mentora para essa nova geração, pois vejo que ainda enfrentamos a ausência de modelos femininos de liderança no mundo corporativo, situação ainda pior quando buscamos essa mesma referência no chão de fábrica”, observa.

TRAJETÓRIA DE SUPERAÇÃO

Kelly Witiuk, de 47 anos, é a primeira mulher do Brasil certificada em caldeiraria pela Abraman. Em um setor tradicionalmente dominado por homens, esta certificação atesta a competência, a trajetória profissional consistente e o protagonismo feminino.

Após um grave acidente em 2021, que resultou na morte do seu companheiro e a deixou com sequelas permanentes, Kelly não apenas se recuperou, mas se encontrou profissionalmente. Abandonou uma carreira no comércio, onde exercia a função de gerente de loja, e ingressou em um ambiente majoritariamente masculino, com o objetivo de crescer profissionalmente.

Em fevereiro de 2024, retornou à área de serviços gerais em uma parada de manutenção na Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), mas seu objetivo era ir além. Incentivada por um programa de qualificação feminina da Nitnave, e motivada a homenagear seu marido, que era caldeireiro, ela abraçou a profissão.

Kelly é inspiração no universo da manutenção industrial. Sua história com a caldeiraria começou quando trabalhava na área de serviços gerais na parada da Repar. Ela foi convidada a integrar o quadro fixo da manutenção da Nitnave, a empresa em que trabalha hoje, onde ingressou em 8 de abril de 2024. Nesse tempo, surgiu um programa que a Repar implantou de ter mulheres em todos os setores.

“Eu já tinha deixado bem claro que queria crescer e fazer parte dessas cotas, em uma função importante.

Quando demonstrei meu desempenho, meu supervisor me chamou. Ele disse que precisava colocar mulheres em três setores — andaime, isolamento e caldeiraria — e a empresa resolveu qualificar mulheres de dentro, treinando e dando cursos. Em um ano fiz a prova no Rio de Janeiro e graças a Deus passei. É lógico que tive que enfrentar preconceito, mas Deus me abraçou com uma equipe que me acolheu, me ajudou e me ensinou muito, dia após dia”, afirma.

Ela sabe que caldeiraria é uma profissão predominantemente masculina, que exige trabalho pesado, mas isso não a intimida. “Nunca me imaginei nessa profissão, mas estou apaixonada pela caldeiraria. E se um dia tiver a oportunidade de ser promovida a encarregada da caldeiraria, serei pioneira também”, afirma Kelly, que trabalha em um ambiente profissional onde o supervisor, o encarregado e quase a totalidade dos colegas são homens. “No setor que trabalho na Repar somos em duas mulheres apenas”, completa.

Edição n.º 1506.