A presença feminina no mercado de trabalho é predominante em setores voltados ao cuidado, educação e serviços sociais, que são frequentemente vistos como continuidade do papel doméstico e de cuidado tradicionalmente atribuído às mulheres, envolvendo tarefas de nutrir, cuidar e educar. A segregação ocupacional de gênero contribui para este quadro, ou seja, o mercado de trabalho ainda é dividido: profissões de cuidado e serviços sociais são majoritariamente femininas, enquanto áreas técnicas, operacionais ou de comando técnico costumam ter maior presença masculina.

O setor público municipal também é um atrativo para as mulheres por oferecer jornadas que, mesmo intensas, permitem uma compatibilização com a gestão da vida familiar e tarefas domésticas não remuneradas que, na maioria, ainda recaem sobre elas.

Mulheres são maioria em setores municipais voltados ao cuidado, educação e serviços sociais
Priscilla atribui a maioria feminina em alguns setores a fatores históricos e culturais

Em Araucária, os números mostram claramente a maior presença feminina no setor público municipal. De acordo com dados da Secretaria Municipal de Gestão de Pessoas (SMGP), atualmente a Prefeitura de Araucária conta com 6.223 colaboradores em seu quadro funcional, dos quais 4.599 são mulheres.

A presença feminina é predominante em diversas áreas da administração municipal. Na Secretaria Municipal de Saúde (SMSA), por exemplo, são 1.139 mulheres entre os 1.486 profissionais que atuam na pasta. Já na Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS), 195 dos 295 trabalhadores são mulheres.
Na Secretaria Municipal de Educação (SMED), a participação feminina também é expressiva, com 2.782 mulheres entre os 3.026 profissionais da rede municipal de ensino.

Priscilla Primo, 33 anos, atua na Secretaria de Educação desde 2011. Já trabalhou em vários CMEIs e escolas e atualmente é professora na Escola Senador Marcos Freire. Ela afirma que a presença maior de mulheres em áreas como cuidado, educação e serviços sociais está ligada a fatores históricos e culturais.

“Durante muito tempo, a sociedade atribuiu às mulheres o papel de cuidar da casa, dos filhos e das pessoas, e isso acabou influenciando também nas escolhas profissionais. Além disso, ainda existem estereótipos de que as mulheres são mais sensíveis, pacientes e cuidadosas, o que reforça essa concentração nesses setores. E há ainda a desigualdade no mercado de trabalho, que por muitos anos limitou o acesso das mulheres a outras profissões”, declara.

Mulheres são maioria em setores municipais voltados ao cuidado, educação e serviços sociais
Silmeri crê que as mulheres ainda podem ser mais valorizadas em seus postos de trabalho

Priscilla afirma que mesmo sendo maioria na área da Educação, as mulheres ainda sofrem preconceito, que aparece, por exemplo, na desvalorização da profissão, na diferença salarial em cargos de liderança e na ideia de que o trabalho feminino está ligado apenas ao cuidado. “Portanto, o preconceito não desaparece com a maioria numérica — ele continua presente de forma mais sutil”, compara.

Para a professora, na Educação não há diferenças profissionais essenciais entre mulheres e homens — ambos são igualmente capazes de ensinar, planejar e contribuir com a aprendizagem dos alunos. As diferenças estão muito mais nas experiências individuais do que no gênero.

“As mulheres, historicamente, foram associadas ao cuidado, à escuta e à sensibilidade, o que pode enriquecer a prática pedagógica. Porém, essas características não são exclusivas nossas, nem significam que oferecemos ‘mais’ que os homens. O ideal é reconhecer que cada profissional, independentemente do gênero, traz contribuições importantes para a Educação”, acredita.

A enfermeira Neide Ferreira, 53 anos, e neste ano completa 23 de profissão. Sua trajetória na área da enfermagem começou em 1997, quando iniciou como auxiliar de enfermagem no Hospital Nossa Senhora das Graças. Em Araucária, começou a trabalhar em julho de 2005. “Comecei na Unidade do Santa Mônica e, ao longo dos anos, passei por diversas unidades e atualmente estou na região do interior, na unidade Tietê/Onças”, relata.

Neide diz que a enfermagem é uma profissão predominantemente feminina e isso está relacionado à essência do cuidado, que é muito presente na mulher. “Nós temos, de forma natural, essa capacidade de cuidar, zelar e oferecer o melhor ao próximo. Na educação, por exemplo, vemos essa característica desde os primeiros aprendizados da criança, muitas vezes acompanhados de perto pela mãe. Já na assistência social, a sensibilidade feminina também se destaca ao perceber e atender às necessidades das pessoas.

Na enfermagem, muitos pacientes se sentem acolhidos com o cuidado mais delicado que a mulher costuma oferecer, não apenas o cuidado técnico, mas uma escuta qualificada e acolhedora”, cita.

Na opinião da enfermeira, ainda é preciso melhorar a sensibilidade em relação às próprias mulheres, especialmente em momentos de dor, alterações de humor e outras particularidades que fazem parte da vivência feminina. “É importante que essas questões sejam compreendidas e respeitadas no ambiente de trabalho e na sociedade”.

Há 15 anos atuando na Assistência Social, Silmeri Fátima de Souza, 45 anos, trabalha em Araucária, no CRAS Califórnia, há um ano e sete meses. Ela atribui a predominância da presença feminina na política da Assistência Social à construção histórica e cultural da profissão. “O serviço social surgiu com influência da igreja, com práticas de caridade e assistencialismo, sendo funções atribuídas às mulheres. E acredito que as mulheres sofrem preconceito independente de serem maioria na política de Assistência Social, porque infelizmente o preconceito perpassa pela questão profissional”, lamenta.

Silmeri lembra que a capacidade profissional não tem distinção de gênero. A mulher e o homem podem entregar a mesma competência em termos profissionais. No entanto, para que as mulheres sejam mais valorizadas e reconhecidas em seus postos de trabalho é preciso continuar com a transformação cultural e social através da educação, fortalecimento de políticas e direitos.

“Tivemos muito avanços em relação à política voltada para as mulheres, porém a luta é constante. A categoria dos assistentes sociais é, por essência, comprometida com a luta e garantia de direitos”, declara.

Edição n.º 1507.