Detentora de vários títulos em provas de águas abertas, a nadadora Marayna Lechinhoski foi convidada a contar, no capítulo de um livro, a sua experiência com a natação. A obra, intitulada “Natação – Práticas, experiência e inspirações”, da Editora Supimpa, terá o lançamento em breve.

No artigo “Quando a água me acolheu”, Marayna conta sobre seus primeiros contatos com a água e como isso mudou sua vida. “Minha principal memória de criança é de uma bacia grande de alumínio, onde eu fazia fisioterapia após cirurgias de correção de uma displasia de quadril. A água ali não era esporte, era cuidado e alívio. Me descobri apaixonada pela água e aprendi a nadar como quem aprende a viver: brincando, experimentando, sem medo. Para mim, a água nunca foi um lugar de cobrança, mas de liberdade”, descreve.

Profissional de Educação Física, especialista em natação infantil e natação para bebês, Marayna é mãe de três filhas e ultramaratonista aquática. Sua trajetória com a água começou ainda na infância, como parte de um processo de reabilitação, e se transformou ao longo dos anos em prática esportiva, profissão e caminho de vida.

“Em 2013 comecei a nadar com o objetivo de emagrecer. Mas, como quase tudo na minha vida, aquilo também ganhou profundidade. Eu precisava de treinos mais elaborados — feitos por mim mesma. Pesquisei, montei séries, testei possibilidades. Comecei a evoluir. E, com a evolução, veio a vontade de nadar mais e aumentar as metragens. Em março de 2020, fiz minha primeira prova em águas abertas: 1.500 metros, à noite, no mar e depois disso os desafios só foram aumentando”, conta.

Para Marayna, a vivência nas águas abertas atravessa a sua prática como educadora. “Respeito o tempo das crianças porque aprendi que o corpo tem seu ritmo. Acolho o medo porque já nadei no escuro. Ensino com presença porque sei que, às vezes, só o olhar de quem está ali já sustenta”, afirma.

Nadadora araucariense escreve artigo para um livro que apresenta vivências de outros atletas
Marayna é professora de natação e ultramaratonista aquática

Confira a íntegra do artigo escrito pela nadadora Marayna Lechinhoski:

QUANDO A ÁGUA ME ACOLHEU!

Eu não cheguei à água por acaso. Antes mesmo de aprender a nadar, ela já fazia parte da minha história.

Nasci com displasia de quadril e, ainda muito pequena, precisei passar por cirurgias e longos períodos engessados, entre os meus dois e três anos de idade. Minhas primeiras memórias não são de correr ou pular, mas de uma bacia grande de alumínio, onde eu fazia fisioterapia. A água ali não era esporte, era cuidado. Era alívio. Era uma possibilidade.

Talvez por isso meus pais sempre me incentivaram a brincar. Brincar muito.

Nos verões, as piscinas dos clubes da minha cidade eram extensão da minha casa. E, todos os anos, a praia nos esperava nas férias. Aprendi a nadar como quem aprende a viver: brincando, experimentando, sem medo. A água nunca foi um lugar de cobrança, mas de liberdade.

Antes mesmo de fazer aulas formais de natação, comecei meus estágios na área da Educação Física. Atuei em diferentes contextos, vivi muitas experiências e tive a oportunidade de ser coordenadora de esportes em uma pré-escola. Foi ali que algo começou a fazer sentido dentro de mim. Naturalmente, fui sendo atraída pela natação infantil — e, pouco depois, pela natação para bebês. Não como técnica apenas, mas para respeitar o tempo, o corpo e a história de cada criança. Talvez porque eu mesma tivesse aprendido cedo que o corpo precisa ser ouvido.

ANOS DEPOIS, A VIDA ME APRESENTOU NOVOS DESAFIOS

Sou mãe de três meninas: Ana Luiza, Ana Clara e Ana Beatriz. Após o nascimento da minha segunda filha, em 2013, comecei a nadar com um objetivo simples: emagrecer. Mas, como quase tudo na minha vida, aquilo também ganhou profundidade.

Eu precisava de treinos mais elaborados — feitos por mim mesma. Pesquisei, montei séries, testei possibilidades. Comecei a evoluir. E, com a evolução, veio a vontade de nadar mais. Aumentar as metragens. Ir além.

Em março de 2020, fiz minha primeira prova em águas abertas: 1.500 metros, à noite, no mar. Um detalhe importante: eu nunca havia nadado no mar à noite. Mas, naquele momento da minha vida, eu precisava daquele desafio. Era pouco tempo depois da minha separação. Eu precisava me reencontrar. E foi no escuro, guiada apenas pela água, que algo se acendeu novamente em mim.

Essa prova me apresentou pessoas incríveis, que me inspiram até hoje. Logo depois, o mundo parou. Veio a pandemia. E, paradoxalmente, foi ali que a água voltou a se abrir para mim.

Fui convidada para treinar com um grupo de amigos em uma represa da nossa região. Durante toda a pandemia, fizemos um treino de águas abertas todos os finais de semana. A cada braçada, eu me apaixonava mais por esse esporte. Fiz uma prova de 3 km no mar e cheguei bem. Bem fisicamente. Bem emocionalmente. Com vontade de nadar mais.

Conversei então com meu técnico, Alexandre Kirilos. Com um trabalho extremamente profissional e respeitoso, fui aumentando gradativamente as metragens das provas. Quando cheguei aos 10 km e comecei a conquistar meus primeiros lugares, participei de uma prova de 13 km na Ilha do Mel, no Paraná. Foi ali que algo ficou claro dentro de mim: eu faria uma ultramaratona aquática.

Minha primeira prova como ultramaratonista foi um desafio de 17 km, com largada em Zimbros, Santa Catarina, até a Praia de Quatro Ilhas. Um lugar profundamente especial para mim. É onde escolhi passar minhas férias todos os anos. Era simbólico que fosse ali. Foi um desafio individual. Apenas eu na água.

No barco de apoio estavam meu técnico, os organizadores do desafio e minha tia Tassia. A presença dela foi essencial. Bastava eu olhar para o barco e vê-la ali para sentir conforto emocional. Passamos boa parte da infância juntas. Minhas memórias de casa de vó sempre a têm presente. Tê-la naquele momento foi como levar minhas raízes comigo.

Eu não tive pensamentos de desistência. Mas, próximo dos 15 km, comecei a sentir o ombro. O medo apareceu. Medo de não conseguir terminar. Ainda assim, eu sabia que estava preparada.

O mar estava desfavorável, muito mexido, ventava muito durante toda a prova. E foi ali que fiz o que sempre fiz desde criança: me conectei com o mar. Rezei. Falei ao mar do meu respeito por ele e seus habitantes e pedi licença para que me deixasse concluir o desafio e que Nossa Senhora me conduzisse pelo melhor caminho até o final.

Quando completei os 17 km, precisei nadar mais 1 km para alcançar a areia. Neste momento, mais um de muitos que me acontecem, enquanto sofria para terminar o desafio e aquele quilômetro, meu técnico escreveu em um quadro os nomes das minhas filhas com a frase “Por elas”. Vi e continuei. Cada nova braçada para chegar no final foi por elas e por mim, também. A mulher que me tornei. Por aquela criança que aprendeu a nadar brincando. Pela mãe que me descobri sendo. Pela profissional que ensina com respeito. Pela atleta que aprendeu a ouvir o corpo e o mar.

Quando cheguei à areia, não finalizei apenas uma prova. Finalizei um ciclo. E iniciei outro.

Hoje, tudo o que vivi nas águas abertas atravessa a minha prática como educadora. Respeito o tempo das crianças porque aprendi que o corpo tem seu ritmo. Acolho o medo porque já nadei no escuro. Ensino com presença porque sei que, às vezes, só o olhar de quem está ali já sustenta.

A água me ensinou a esperar, a insistir e a confiar. E sigo acreditando que, quando entramos nela com respeito, ela devolve muito mais do que força: ela devolve sentido.

Edição n.º 1506.