A morte do cão comunitário “Orelha”, na Praia Brava, em Florianópolis/SC, ganhou repercussão nacional e impulsionou uma mobilização batizada de “Justiça por Orelha”, que busca pressionar autoridades a investigar o caso e punir os responsáveis. O cachorro foi brutalmente agredido a pauladas por adolescentes e precisou ser submetido à eutanásia no último dia 15 de janeiro.

A morte de Orelha também reacendeu um debate sensível e urgente: o que leva uma pessoa a cometer um ato de extrema crueldade contra um animal? Também trouxe à baila o caso recente do desaparecimento da husky siberiana Maya, ocorrido no dia 2 de outubro de 2025, em Araucária, que permanece sem desfecho quase quatro meses depois.

Maya desapareceu na madrugada do dia 2 de outubro de 2025, após ter escapado do condomínio em que reside sua família, no bairro Iguaçu. Ela acabou entrando no terreno do vizinho, onde teria atacado algumas galinhas. Daquele dia em diante, apesar de todas as tentativas de buscas feitas pelo tutor Cleber Lima, a cachorra não foi mais localizada.

Filmagens de uma câmera de segurança do condomínio mostram o último dia em que Maya foi vista. Ela foge por debaixo do portão e em seguida caminha pela rua Paranavaí. Na sequência, entra em um terreno pelo portão, que está aberto. O tutor de Maya também teve acesso a imagens da câmera de segurança de uma casa que fica em frente ao imóvel em que a cachorra entrou, as quais mostram que por volta das 7h do dia 2, uma pessoa tenta entrar na casa e se depara com a cachorra próxima ao portão, que agora está fechado. Essa pessoa parece conversar com alguém que está do lado de dentro do imóvel. Poucos minutos depois é possível ouvir um estampido e uivos de dor da cachorra. Após isso, o homem que estava do lado de fora do imóvel entra tranquilamente pelo portão.

Inconformado com a situação, o tutor de Maya registrou dois boletins de ocorrência: um na Delegacia de Araucária e outro na Delegacia de Proteção e Meio Ambiente (DPMA), de Curitiba. A DPMA assumiu as investigações em torno do caso.

A DPMA chegou a conseguir que a Justiça determinasse a realização de buscas e apreensões em imóveis ligados a duas pessoas. Uma delas seria a proprietária do imóvel em que Maya foi vista pela última vez. A segunda seria a pessoa que teria arrendado essa propriedade para plantação e criação de animais.

Essas buscas foram cumpridas em 14 de outubro. Na oportunidade, celulares dos alvos foram apreendidos para verificar a existência de conteúdo que pudesse colaborar para elucidação dos fatos.

Esses equipamentos teriam sido encaminhados à Polícia Cientifica do Paraná, a quem cabe periciar esse tipo de material. Porém, até o momento o conteúdo dos aparelhos ainda não teria sido extraído.
Nossa reportagem entrou em contato com o delegado Guilherme Dias, responsável pelas investigações para entender em que pé anda o inquérito instaurado por ele. Porém, até o fechamento desta matéria, ele não havia nos respondido.

Ainda na época dos fatos, a vereadora Andressa Bianchessi, de Curitiba, ativista da causa animal, protocolou uma denúncia junto à 1ª Promotoria de Justiça de Araucária, pedindo rigor nas investigações em torno do desaparecimento da cachorra Maya e punição aos envolvidos. Nossa reportagem tentou contato com a vereadora para obter informações acerca do processo, e ela nos disse que enviou ofícios no dia 06/10/25 para os órgãos competentes, mas não recebeu resposta.

Entramos em contato também com a 1ª Promotoria, que informou que o caso foi remetido à 4ª Promotoria. Em contato com esta, o promotor responsável pelo caso diligentemente nos deu retorno por meio de nota. “Esse caso foi objeto de pedido de busca e apreensão e quebra de sigilo de dados pela Delegacia de Polícia de Araucária, no qual o Ministério Público do Paraná, por meio da 4ª Promotoria de Justiça de Araucária, se manifestou de forma favorável, sendo os pedidos deferidos pelo Juízo. Na busca e apreensão realizada, não foram encontrados elementos ou objetos ilícitos que pudessem ajudar na investigação. Já quanto à quebra de sigilo de dados que também foi deferida, aguarda-se o resultado que será informado nos autos mediante relatório pela Autoridade Policial representante, no prazo que foi deferido pelo Juízo. Esse é o estado atual do procedimento, que corre em segredo de justiça por se tratar de Cautelar Inominada que trata de quebra de sigilo de dados”, informou.

Enquanto a perícia não é feita, a sociedade araucariense e os tutores da cachorra seguem sem a mínima chance de saber o que houve com Maya a partir do momento em que ela entrou naquele imóvel na manhã de 2 de outubro de 2025. A lentidão no desfecho do caso, de certa forma, também acaba por soar como um desalento para aqueles que entendem os pets como membros da família. Isso para não dizer que a falta de rigor na apuração acaba por passar a impressão de que a prática de maus tratos a animais é um crime de menor gravidade, fazendo com que outras Mayas e Orelhas surjam Brasil afora.

Edição n.º 1500.