Como não amar as profissionais do sexo? É impossível não se impressionar com a força espiritual dessas mulheres. Livres das amarras morais impostas sobre seus corpos, socialmente atacadas, espiritualmente independentes. Não cabem nos altares moralistas — e por isso são queimadas pelas línguas sacerdotais.

Mas na calada da noite… ou naquele intervalo “estratégico” do dia… são essas mesmas línguas que encontram nelas riso, fetiche e alívio.

Curioso, né?

A todas as profissionais do sexo de Araucária, do Paraná e do Brasil: todo o meu respeito. Sintam meu abraço espiritual. Eu amo vocês publicamente — e a espiritualidade que eu acredito ama ainda mais.

E digo mais: é inegável que as “garotas do job” carregam uma bênção espiritual que muita gente finge não ver. Inclusive, Cristo tem ligação direta, sanguínea, com uma delas. Sim — “vovó Raabe” (Josué 2; Mateus 1:5). Uma profissional do sexo, ancestral de Jesus, que foi peça-chave numa missão que, na mão de muito “homem de Deus”, teria dado errado.

Como sempre… salvando o mundo, né “migas”?

E se isso incomoda, piora: para Jesus, elas têm até prioridade espiritual.

Isso não é opinião. Está dito. Quando confronta a elite religiosa da época, Jesus escancara o que muitos até hoje fingem não ver. Ele não suporta o falso moralista. Aquele que no culto diz “amém”, sustenta discurso de controle sobre o corpo feminino, impõe submissão… mas na surdina celebra na “casa das primas”.

Jesus não defende exploração. Não defende abuso. Ele defende verdade.
E é exatamente por isso que ele expõe os religiosos da época: porque muitos que se diziam homens de fé eram, na prática, impostores. Pastores de aparência — mas por dentro, outra coisa.

E aí vem a frase que até hoje dá curto-circuito em muita consciência:

“As prostitutas vos precedem no Reino dos Céus” (Mateus 21:31).

Não é sobre glamourizar nada. É sobre autenticidade.

É sobre quem vive o que é — versus quem finge ser o que não é.

E uma das cenas mais poderosas pra mim é quando uma mulher considerada “impura” se joga aos pés de Jesus, chora, lava com lágrimas… enquanto os moralistas ficam escandalizados (Lucas 7:37-50).

E Jesus, com a calma de quem sabe exatamente o que está fazendo, desmonta tudo:
“Eu entrei na tua casa e você não fez nada. Ela não parou um instante.”

Ou seja: menos discurso, mais verdade.

É isso que toca o espiritual.

Eu só fui entender isso de verdade quando parei de tentar caber numa versão que não era minha.

Quando me assumi gay e deixei de performar uma fé que não me comportava, mesmo tendo aprendido Bíblia de trás pra frente.

E mais ainda quando entrei na Umbanda e conheci as Pombagiras — espíritos de mulheres que viveram violência, exclusão, julgamento… e hoje trabalham justamente no resgate de quem também foi colocado à margem.

Ali eu entendi.

O amor espiritual não mora só nos altares.

Nossa forma de gozar a vida pode não receber a bênção da igreja. Mas quando vem com verdade… não precisa de autorização.

Pode até incomodar quem vive de aparência.

Mas pelo menos não está coligado com o pai da mentira.

Edição n.º 1508.