Pombagira é uma das entidades mais lindas, poderosas e incompreendidas das religiões de matriz africana — Umbanda, Quimbanda, Jurema, Tambor de Mina e tantas outras que carregam resquícios católicos, espíritas e indígenas misturados no mesmo caldeirão sagrado.

Ela é dessas que incomodam profundamente. Mal falada por pseudo-religiosos que não têm força suficiente na própria fé e precisam atacar o terreiro alheio para encher púlpito e arquibancada. Os mesmos que, quando o coração aperta de verdade e a alma sangra de dor, são os primeiros a correr atrás de uma Pombagira para resolver o que o “santo” deles não consegue.

Ao contrário do que a boca miúda do preconceito espalha por aí, Pombagira não é agência de casamento nem de descasamento. Ela não fica mexendo em corno alheio por esporte. Ela é um coletivo de espíritos femininos de altíssimo valor espiritual, guardiãs ferozes que caminham lado a lado com os Exus.

Elas representam a força bruta dos nossos desejos mais honestos. São almas de mulheres que, em vida e depois dela, lutaram e ainda lutam para não carregar corrente. Mulheres livres. E aí, meus caros, quando você junta essas duas palavras — mulher e livre — o inferno se levanta. Porque para certo tipo de machista, mulher só anda direito quando tem homem abençoando (ou controlando) o passo.

Parece cena conhecida, não é? Cadê as vereadoras, as prefeitas, as mulheres no comando? Alô, meninas… ainda dá tempo de virar esse jogo aqui e do outro lado do véu também. Porque o julgamento não acaba no túmulo. Algumas almas continuam querendo colocar saia comprida em mulher morta.

As Pombagiras atuam em várias frentes ao mesmo tempo: aconselham quem está com o coração bagunçado e o desejo perdido, trazendo clareza para relacionamentos que viraram nó cego. Elas encarnam o empoderamento feminino puro, representando a mulher que não se curva, que não se submete e que devolve a misoginia com um olhar afiado e uma gargalhada. Atuam com proteção e justiça, não tolerando traição nem injustiça — quando precisam agir, agem.

São mestras na limpeza espiritual, tirando obsessores e energias pesadas com a mesma elegância que dançam. E a gargalhada delas? Não é enfeite, é arma: representa a liberdade de enfrentar qualquer desafio com leveza e poder. Suas cores são vermelho e preto. Sua saudação, um Laroyê carregado de respeito e força.

Eu conheci as minhas primeiras Pombagiras há dez anos, num terreiro colado ao Cemitério do Porto das Laranjeiras. Foi ali que uma delas me olhou fundo e começou a quebrar, um por um, todos os meus tabus bem guardadinhos. Ela me deu a liberdade da alma que eu mesmo tinha preso no armário.

Depois veio o resto: viver sem culpa os desejos que o mundo chamava de pecado. E que liberdade sexual divina, meus irmãos! Eu pequei com gosto, me sentindo mais santo do que nunca — porque finalmente parei de viver uma vida dúbia, fingindo santidade em altar que condenava exatamente quem eu sou.

Com o tempo, amadureci tanto no colo delas que também recebi o que há de mais doce: experiências amorosas tranquilas, profundas e perenes. Sem drama, sem carma pesado, sem encenação.

Pombagira não é só guia espiritual. É amiga de verdade. Daquelas que não te julga, não te condena, não te manda fazer ritual de purificação pra se redimir. Ela te acolhe inteiro, com desejo, sombra e luz. O timing e a escolha são seus. Ela só está ali, ao lado, pra te ajudar a caminhar sem medo de ser quem você é.

Confesso com o peito aberto: eu desfrutei muito com as minhas lindas Pombagiras. Dos delírios mais quentes dos meus desejos aos caldeirões de magia pesada. Porque quando a coisa aperta, ela não espera você pedir. Resolve logo com as inimigas ocultas… e deixa a saia delas bem curta, do jeitinho que merece.
Laroyê, minhas Rainhas!

Que a bênção da Pombagira caia sobre quem tem coragem de ser livre.

Edição n.º 1509.