A linha espiritual dos Caboclos é uma das mais belas e potentes expressões da espiritualidade brasileira dentro da Umbanda e dos centros espirituais.

A linha dos caboclos acolhe os espíritos dos povos indígenas brasileiros, aqueles que já habitavam estas terras antes da colonização, os verdadeiros povos originários, guardiões ancestrais do solo, da mata, das águas e do saber que nasce da terra.

Relatos históricos apontam que, por não possuírem no passado uma expressão linguística moldada pelos padrões ocidentais, muitos caboclos foram afastados das casas espíritas kardecistas, por não serem considerados espíritos “evoluídos”. Um pensamento herdado diretamente da cultura eurocêntrica que ainda dominava — e em muitos espaços ainda domina — a mente dos colonizadores.

O culto aos ancestrais indígenas, espíritos de grau elevadíssimo, mas que não detinham um “Google Tradutor” para se encaixar na expectativa intelectual da mediunidade psicógrafa, acabou sendo marginalizado. Foi empurrado para espaços de resistência do povo preto, para terreiros, quilombos e aldeias, onde a espiritualidade nunca precisou de validação acadêmica para existir.

Até que um homem branco, assim como eu, com passabilidade política e social, Zélio Fernandino de Moraes, tomou a palavra na sociedade espírita da época e fez duras críticas ao tratamento dado àqueles espíritos, considerados inferiores apenas por não se comunicarem segundo os códigos europeus.

Diante disso, Zélio se desligou das federações espíritas e fundou a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, com a intenção declarada de acolher todos os espíritos de forma igualitária, sem justificar elevação espiritual por etnia, religião ou cor. Sim, é preciso dizer: o racismo também existia — e ainda existe — em espaços mediúnicos.

A partir desse movimento, o culto aos caboclos ganhou reconhecimento institucional e consolidou-se a narrativa de Zélio como fundador da Umbanda, religião de matriz africana que congrega elementos do candomblé, do espiritismo, do catolicismo e de outras tradições.

Entretanto, a Umbanda — não enquanto nome, mas enquanto prática espiritual — já acontecia muito antes de Zélio. Ela pulsava nos quilombos, nas periferias, nas matas e nos espaços de resistência, onde a fé não precisava da chancela da branquitude política para existir. Ali, a espiritualidade tinha os pés no chão, o corpo presente e o desejo genuíno de paz e amor, valores que hoje vestem a bandeira da Umbanda.

Os caboclos são espíritos que carregam uma sabedoria ancestral que não vem de universidades inglesas ou portuguesas, mas de uma vivência milenar de povos de tradição oral. Povos que aprenderam a ouvir a floresta, respeitar os ciclos da natureza e compreender que somos uma grande aldeia, uma família espiritual interligada.

Talvez tenhamos ouvido pouco os caboclos no passado. Talvez ainda hoje precisemos silenciar mais para escutar o grito que vem das matas — e que agora também ecoa dentro dos terreiros. Um grito de liberdade, de cura das sombras discriminatórias e de respeito profundo à vida. A todas as vidas.