A Páscoa, que em 2026 será comemorada no domingo, 5 de abril, é uma das celebrações mais importantes do calendário religioso e, apesar de ser comumente associada ao Cristianismo, também possui significados e comemorações em outras tradições religiosas.

Seja por meio da purificação, da caridade ou do jejum, essa época une diferentes crenças no propósito comum de transformação espiritual e recomeço. Mas você sabe como as diferentes religiões celebram a data e o que muda em cada uma delas? Acompanhe a seguir.

CATÓLICOS

Para os cristãos católicos, a Semana Santa é o coração do ano litúrgico, pois nela se celebram os mistérios centrais da fé: a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Mais do que uma simples recordação histórica, este tempo é uma profunda experiência espiritual, na qual os fiéis são convidados a caminhar com Cristo, revivendo os últimos momentos de sua vida terrena e acolhendo o sentido mais pleno de sua entrega por amor à humanidade.

“Tudo se inicia com o Domingo de Ramos, que recorda a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, quando foi aclamado pelo povo com ramos e louvores. No entanto, esse mesmo povo que o acolhe com alegria é aquele que, pouco tempo depois, pedirá sua condenação. Esse contraste leva os fiéis a refletirem sobre a própria fidelidade a Cristo e sobre a necessidade de uma fé firme, que não se abale diante das dificuldades”, explica o Padre Marcos Lorenzo, Pároco do Santuário Nossa Senhora dos Remédios.

Segundo ele, na Quinta-feira Santa, a Igreja celebra a instituição da Eucaristia e do sacerdócio ministerial. Na Última Ceia, Jesus se oferece como alimento espiritual e deixa aos seus discípulos o mandamento do amor, expresso de maneira concreta no gesto do lava-pés. Esse dia convida todos os cristãos a viverem a humildade, o serviço e a doação ao próximo, seguindo o exemplo do próprio Cristo.

A Sexta-feira Santa é marcada pela contemplação do mistério da Cruz. É o dia em que Jesus entrega sua vida pela salvação da humanidade, manifestando o maior amor que alguém pode ter: dar a vida pelos seus amigos. A Igreja vive esse momento em silêncio, oração e jejum, convidando os fiéis a meditarem sobre o sofrimento de Cristo e o valor redentor de seu sacrifício.

O Sábado Santo é um dia de silêncio e espera, no qual a Igreja permanece junto ao sepulcro do Senhor, meditando sua Paixão e aguardando a Ressurreição. À noite, na Vigília Pascal, a mais importante celebração de todo o ano, a luz do Cristo Ressuscitado rompe as trevas, proclamando a vitória da vida sobre a morte e renovando a esperança de toda a humanidade.

Por fim, o Domingo de Páscoa celebra a Ressurreição de Jesus, fundamento da fé cristã. É a certeza de que a morte não tem a última palavra e de que todos são chamados a uma vida nova em Cristo. A alegria pascal renova os corações e fortalece a esperança na vida eterna.

“Assim, a Semana Santa não é apenas um conjunto de celebrações, mas um verdadeiro caminho de conversão e renovação espiritual. Ao participar intensamente desse tempo sagrado, os fiéis são convidados a aprofundar sua fé, a viver o amor ao próximo e a renovar seu compromisso com o Evangelho, permitindo que o mistério pascal transforme suas vidas”, ilustra o Pároco.

EVANGÉLICOS E PROTESTANTES

De acordo com o pastor Luiz Armando Yastrebow, presidente executivo e pastor sênior na Celeiro Comunidade Cristã em Araucária, a celebração da Páscoa, em suas diversas formas, apresenta pontos em comum e poucas divergências entre as tradições judaica, católica, evangélica e protestante.

No judaísmo, a Páscoa comemora a libertação do povo de Israel da escravidão no Egito. A narrativa bíblica relata que Deus enviou pragas aos egípcios, poupando as casas dos israelitas que haviam marcado seus umbrais com o sangue do cordeiro, seguindo as instruções divinas. Para católicos e protestantes, a Páscoa tem um significado central na fé cristã.

“Os cristãos creem que Jesus, por meio de sua morte e ressurreição, oferece a salvação e a remissão dos pecados. A celebração da Páscoa inclui a comemoração da morte e ressurreição de Jesus, com a Santa Ceia (Eucaristia) sendo uma prática comum, realizada em memória de Jesus. A data da Páscoa cristã varia, pois é calculada com base em um calendário lunar, diferente do calendário solar utilizado no judaísmo”, explica.

O Pastor observa que a Igreja Católica celebra a Eucaristia em cada missa, acreditando na transubstanciação, ou seja, na transformação do pão e do vinho no corpo e sangue de Cristo. “As igrejas evangélicas e protestantes, em geral, adotam uma perspectiva diferente, considerando a Santa Ceia como um memorial, um ato de lembrança do sacrifício de Jesus”, afirma.

Ainda segundo o Pastor Luiz Armando, a comercialização da Páscoa, com a venda de ovos de chocolate, é um fenômeno cultural mais recente. Essa prática tem suas raízes em tradições pagãs, como o uso do coelho e do ovo como símbolos de fertilidade e renovação.

“Mas independentemente dessas influências, a Páscoa cristã continua sendo um evento central na fé, simbolizando a esperança, salvação e vitória sobre a morte, através do sacrifício e da ressurreição de Jesus Cristo”, declara o Pastor.

CANDOMBLECISTAS

O Babalaxé Pedro Gomes Palu, advogado e presidente do Ile Ketú asé Obá Aiyra, afirma que a quaresma, como o próprio nome já diz, é um período que antecede os 40 dias antes da Páscoa. Para o catolicismo, segundo ele, o período representa a ressurreição de Jesus, tradição esta que prepara os cristãos às comemorações posteriores.

Contudo, a Sexta-Feira Santa, embora seja uma liturgia cristã de luto e silêncio, tem um importante significado para outras crenças, como o Candomblé. Para os Terreiros, a data foi ressignificada, transformando-se em um dia de culto a Oxalá e de renovação de laços comunitários, com momentos reservados à fé, adaptação e à resistência cultural.

“Para os candomblecistas, toda sexta-feira é santa, sendo marcada pelo culto a Oxalá, entretanto, o período da quaresma visa a prática de múltiplos rituais e preceitos nos Terreiros, finalizando com a Sexta-Feira Santa que antecede o Sábado de Aleluia, data que ocorre o festejo a Ogum. Na festividade aberta ao público é servido, como parte dos rituais do Candomblé, um pão de batata cará (inhame do norte) e trigo para todos os presentes, que nos reconecta ao sagrado, reforçando o momento de partilha e da culinária ancestral que nos liga aos nossos antepassados”, explica.

O Babalaxé diz ainda que ao fim da Sexta-Feira Santa, para muitas casas de Candomblé, é marcado o término do período de limpeza espiritual, dando início ao novo ciclo de reconexão ancestral.

Edição n.º 1509.