Vamos direto ao ponto: desde quando político vira messias?

Recentemente, Donald Trump publicou uma imagem gerada por IA em que aparece vestido como Jesus Cristo — luz divina, pose de salvador, mão estendida, quase faltando só a legenda “tomai e votai”. Não foi metáfora. Não foi “arte”. Foi ego puro. Depois apagou, alegando que achava que era ele como “médico da Cruz Vermelha”. Claro, né? Só a imprensa mentirosa interpretou errado.

O mais escandaloso não foi o delírio de Trump. Foi o silêncio ensurdecedor de quem vive gritando “blasfêmia!” por muito menos.

Se um artista LGBTQIAPN+ tivesse feito a mesma imagem, já teríamos culto de oração, protesto na porta da galeria, lives de pastores rasgando o verbo e cancelamento coletivo em nome da “moral cristã”. Mas como é Trump, o “ungido”, vira “interpretação artística” ou “brincadeira”. Hipocrisia tem limite?

Agora piora.

O mesmo homem que se fantasia de Cristo atacou abertamente o Papa Leão XIV — sucessor de Pedro, primeiro papa americano — só porque o Santo Padre ousou fazer o básico do Evangelho: pregar a paz, criticar a guerra contra o Irã e condenar o tratamento desumano a imigrantes.

Trump não quer um papa que ache “terrível” os Estados Unidos atacarem a Venezuela ou que chame de “inaceitável” ameaças de destruição contra o povo iraniano. Quer um papa que cale a boca e abençoe bombas.

Enquanto isso, imigrantes são tratados como criminosos em massa, deportados, encarcerados sem julgamento digno (inclusive no inferno chamado presídio do Brooklin ou enviados para El Salvador), acorrentados ou, com azar, abatidos pela ICE. Tudo embalado na narrativa de que são “ameaça”.

O Evangelho é bem claro: “Bem-aventurados os pacificadores”. Cristo não mandou construir império, separar famílias, tratar gente como lixo ou invadir territórios alheios. Mandou amar o próximo — inclusive o estrangeiro, o pobre, o “outro”.

E o silêncio pastoral aqui no Brasil? Ensurdecedor.

Por muito menos, grupos de pseudo-cristãos atacam ferozmente pessoas LGBTQIAPN+ que representam o sofrimento de Cristo na cruz, chamando de “blasfêmia” qualquer aproximação com o martírio.

Por muito menos, eu, como colunista, fui crucificado por pastores de lobos ao publicar o texto “A Calcinha do Pastor”, só por mostrar Jesus abraçando uma travesti.

Por muito menos, o Padre Júlio Lancelotti é atacado diariamente por fazer exatamente o que Cristo mandou: acolher os pequeninos, os excluídos, as pessoas em situação de rua. “Deixai vir a mim os pequeninos”, lembra? Mas para muitos, Jesus só serve quando não incomoda o bolso ou a ideologia.

Não, meus irmãos.

O Anticristo da atualidade não vem com chifre e rabo. Vem com discurso divino na boca, bandeira na mão e punho de ferro. Ele promete salvação para alguns enquanto normaliza derramamento de sangue, cultura de estupro, feminicídio, transfobia e lavagem de dinheiro em nome de Deus.

Enquanto isso, quem vive o Evangelho de verdade — estendendo a mão ao marginalizado, defendendo a paz, denunciando a guerra — é chamado de comunista, herege ou “fraco”.

Chegou a hora de parar de aplaudir quem se coloca no lugar de Cristo enquanto pisa em tudo que Ele ensinou.

Onde estão os verdadeiros cristãos? Aqueles que abraçam a mensagem do Evangelho com ações, não só com alto-falante a 10.000 decibéis?

Porque quando a fé vira ferramenta de poder e marketing político, ela deixa de ser fé.

Vira estratégia.

Vira Besta.

E a pergunta não é mais se Trump é Jesus ou o Anticristo.

A pergunta é: quem vocês estão escolhendo chamar de Cristo hoje?

E dependendo da resposta… o problema não está só em Washington.

Está no altar de quem aplaude.

Edição n.º 1511.