Vando Fortuna: O 2º beijo gay — o líder religioso
Meu leitor, o segundo beijo gay não teve nada da doçura do primeiro, aquele que ganhei no Rio Formoso, em Bonito, Mato Grosso do Sul.
Este foi repulsivo. Não foi consensual. Foi um beijo roubado, daqueles que hoje, graças a Deus, carregam peso de crime e podem render prisão. Um beijo abusivo, arrancado à força por um líder religioso da mesma congregação onde eu ainda tentava manter a fé cristã — enquanto me destruía por dentro na ilusão de uma “cura gay” que nunca chegava.
Jamais esqueço. Meu cooperador de Jovens na época — pastor da juventude, homem simples, verdadeiramente iluminado por Deus, já falecido —, humilde, acolhedor, de família amorosíssima, trouxe com entusiasmo um líder religioso visitante. Homem mais velho, casado, com filhos. Ele pregou, conquistou a mocidade, e nós até visitamos a igreja dele numa cidade vizinha, como era costume.
Eu já carregava dentro de mim a culpa cristã pesada pela homossexualidade. Sentia que era indigno da vida humana só por ter nascido assim.
Numa noite após um culto, esse líder se ofereceu para me dar carona até em casa. Aceitei. No meio do caminho, começou a falar intimidades que não combinavam com o púlpito: que me achava um rapaz virtuoso, com futuro brilhante na congregação, que se via em mim. Pouco antes de chegar, parou o carro e me surpreendeu com um beijo. Eu me esquivei, assustado. Tinha 23 anos. Foi então que ele confessou: vivia com a esposa há 15 anos sem nenhuma intimidade e queria algo extraconjugal comigo.
Ali meu mundo desabou.
Desci daquele carro me sentindo sujo, traído, enganado por todas as narrativas que me vendiam. Naquele instante, entendi a farsa que estava vivendo. Refleti sobre o que tinha feito com Elton (se você chegou agora, volte à coluna “Meu primeiro beijo gay” e entenderá).
Saí dali mais pecador na minha própria cabeça do que nunca. Mas tomei uma decisão: eu não vestiria aquela mesma vergonha. Não enganaria uma mulher, não teria filhos mantendo uma mentira. Meu caminho seria outro.
Chamei os anciãos, me desliguei voluntariamente da igreja. Não queria mais viver uma contradição que não cabia na minha essência. A verdade liberta, ainda que doa — palavras do próprio Jesus.
Saiu da igreja o irmão Evandro.
E nasceu ali o Vando Profano. Não como inimigo de Cristo, mas como um amigo Dele caminhando agora pela estrada da vida real, sem disfarces.
O líder que me beijou? Pesquisei recentemente nos relatórios públicos da congregação. Hoje ele ocupa o cargo mais elevado de pregação que aquela religião permite. Foi promovido.
E o Vando? Ah, o Vando está no fundão do céu cristão, misturado com toda a comunidade LGBTQIAPN+, com todos que saíram das igrejas carregando cicatrizes. Cada um com sua história. Cada um com seu motivo para não querer pisar mais num templo.
O que me ajudou a superar esse beijo nojento foi uma boa psicóloga e, anos depois, uma fé de terreiro, pés no chão, sem hipocrisia. Uma espiritualidade que conversa com Pombagiras e sabe que beijo bom é beijo consentido, desejado, livre.
Porque quem rola pedra mesmo… é Xangô.
Edição n.º 1515.
