Quem caminha hoje pelas vastidões do interior do país, onde o horizonte se perde entre o verde do capim e o azul do céu, jura que aquela paisagem sempre esteve ali, pacificada pelo tempo. Mas a terra tem memória. Debaixo do solo pisoteado e do capim alto, correm as veias de uma história feita de encontros profundos, partidas forçadas e uma longa, persistente busca por espaço. Para compreender o desenho do Brasil, é preciso aguçar os sentidos e observar os três habitantes que dividem esse chão.

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Lá adiante, onde a planície cede lugar aos mistérios da mata fechada, move-se a Onça. Ela é a dona original do silêncio. Seus passos não fazem barulho porque conhecem cada curva das raízes ancestrais, cada nascente que brota da rocha muito antes de qualquer mapa ser traçado. A Onça não pediu licença para existir; ela é a própria tradução da terra. No entanto, há séculos seus caminhos vêm sendo interrompidos. Suas pegadas majestosas, que antes dominavam o continente, hoje esbarram em cercas farpadas e na incompreensão de quem a enxerga como uma ameaça a ser acuada, empurrada sempre um pouco mais para as margens do mapa.

No centro do cenário, banhado pelo sol do meio-dia, está o Boi. Ele chegou de longe, cruzando o oceano em caravelas para impor uma nova ordem ao território. O Boi não é um monstro; traz consigo a força do trabalho, a geometria dos currais e a engrenagem econômica que ergueu as vilas e as cidades ao redor. Ele representa a busca por estrutura, a herança da permanência e a construção de uma nova rotina. O problema histórico, contudo, nunca foi a existência do Boi, mas sim a lógica do pasto que o acompanha. Uma lógica que, para prosperar, exigiu a derrubada sistemática da floresta da Onça, decretando que o espaço só teria valor se fosse delimitado por arames e convertido em mercadoria. O Boi herdou os melhores pastos, as sombras mais fartas e o controle dos poços de água.

E, pousado justamente no topo de um desses mourões de cerca, salta o Bico-de-lacre. Pequeno, com sua máscara avermelhada e plumagem discreta, ele é o retrato vivo de uma travessia forçada. Não veio para ser o dono da fazenda, tampouco habitava a mata original. Chegou trancado nos porões escuros dos navios, trazido como carga involuntária pela mesma engrenagem que expandia os currais do Boi. Mas o Bico-de-lacre desafiou o cativeiro. Ao encontrar as frestas da gaiola, ganhou os céus. Ele não devastou a vegetação nativa nem expulsou os que aqui estavam; aprendeu a ler os ventos, fincou raízes nas bordas do pasto e ofereceu à nova terra o seu canto e sua resiliência. Sem pedir permissão, tornou-se parte indissociável da identidade sonora deste chão.

A grande tensão que molda o Brasil contemporâneo reside na distribuição desse território. As cercas que foram erguidas no século XVI continuam de pé, perpetuando abismos. O Boi — representado pelas estruturas institucionais, econômicas e sociais que herdamos da Europa — ainda ocupa o centro do pasto, muitas vezes alheio ao fato de que sua abundância foi construída sobre o encolhimento do espaço alheio. A Onça, que guarda a ancestralidade indígena, segue lutando pelo direito básico de ter sua mata demarcada, protegida e respeitada na sua soberania. E o Bico-de-lacre, que dá tom, cor e ritmo à cultura brasileira, ainda se vê empurrado para as periferias e frestas, precisando provar diariamente sua dignidade e o direito de voar sem ser alvo.

Para que as relações étnico-raciais neste imenso ecossistema chamado Brasil se tornem finalmente justas, uma nova ecologia social precisa ser desenhada. O caminho não passa pela expulsão do Boi ou pela destruição do que foi construído, mas pelo reconhecimento honesto de que o pasto não pode ser infinito. É preciso que as cercas recuem. É urgente devolver à Onça a segurança de suas matas sagradas, garantindo sua autonomia e sua sobrevivência. E é fundamental abrir os portões centrais para o Bico-de-lacre, não mais como um sobrevivente tolerado nas margens, mas como coautor legítimo do destino da terra, com pleno acesso aos recursos e aos espaços de poder.

A justiça no Brasil nascerá no dia em que compreendermos que a verdadeira riqueza deste solo não está na uniformidade do pasto, mas na coexistência digna de suas matrizes. Só então, quando a Onça puder caminhar livre, o Boi descansar sob uma sombra justa e o Bico-de-lacre cantar sem medo, teremos enfim uma pátria que faz as pazes com a própria história.

Edição n.º 1938

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