Especialistas falam do papel da família no tratamento da criança com autismo
Crianças autistas com o grau de comprometimento do João precisam de monitoramento o tempo todo, afirmam especialistas de Araucária.
O caso do garoto João Gabriel, autista não verbal de apenas 5 anos, acendeu um alerta com relação à necessidade da supervisão constante por parte dos pais ou responsáveis. O autismo não verbal se dá pela ausência da linguagem oral, que muitas vezes pode ser desenvolvida ao longo do desenvolvimento da criança, ou não.
De acordo com a diretora da Educação Especial da Secretaria Municipal de Educação, Raquel Terezinha Zanon Belniaki, o fato de João ter acesso a toda a área que faz parte da propriedade foi de grande risco para o padrão de uma criança com autismo. ‘Entendemos que cuidar de um filho com esse perfil não é fácil para os pais e responsáveis, mas durante todo o tempo, sem exceção, ele deveria ter sido monitorado’, afirma.
João recebia atendimento especializado em sala de recurso de um CMEI da rede municipal de ensino, no período de contraturno à frequência da educação infantil. Crianças como ele, podem ter a comunicação desenvolvida por meio de figuras, cartões e outros recursos da comunicação alternativa. Ainda assim, mesmo os falantes, alguns autistas não manifestam vontade de se comunicar. ‘Importante reforçar que, falantes ou não, muitos autistas não têm noção do perigo’, explica a diretora.
A psicopedagoga pós graduada em ABA – Análise do Comportamento Aplicada, e presidente da AKA- Associação Casa do Autista de Araucária, Sandra Prado, declara que a tragédia nos deixa uma lição: autistas com esse grau de comprometimento precisam de monitoramento o tempo todo. ‘A grande maioria não tem noção do que é perigoso, são sabe se defender. É complicado falar sobre isso, mas precisamos falar. Não culpabilizando os pais, porque é evidente que eles estão sofrendo, mas não podemos deixar de mencionar o fato de o menino ter sido deixado um determinado tempo sem monitoração’, explica.
Segundo ela, existe todo um protocolo para abordar crianças com esse grau de autismo, de como chegar até eles, para intervir numa situação de perigo. ‘Precisamos prevenir, se antecipar aos fatos, para que o pior não venha a acontecer. Meu filho autista, por exemplo, tem 26 anos de idade e não atravessa uma rua sozinho. Já fizemos treinos com ele, a terapeuta ocupacional dele tentou várias vezes, mas como ele é muito desligado, não pode ser exposto e atravessar uma rua sozinho’, ilustra.
Sandra diz ainda que as pessoas precisam se conscientizar a respeito disso, não adianta comparar um autista com outro, ou com uma criança típica, que também precisa de supervisão. ‘Eles podem subir na tampa de um fogão, com uma panela quente que pode virar em cima deles. Eles não têm esse filtro, não têm essa percepção. As pessoas me criticam por eu falar, mas estou no meu lugar de fala, porque eu sou mãe, avó, tia, madrinha de crianças autistas e trabalho com esse público há 17 anos’, afirma.
A psicopedagoga menciona a existência de um grupo de suporte para pais de autistas, que oferece assessoria, inclusive jurídica, e também um grupo de mães — o mais antigo da região de Araucária -, que presta orientação de forma inteiramente gratuita. ‘Nosso objetivo é viabilizar o acesso a informações fundamentadas em evidências científicas. Compreendemos a escassez de recursos informativos de qualidade e o impacto positivo que esse conhecimento gera na vida das famílias. Esse é o propósito da nossa associação e o meu compromisso pessoal’, declara.
Para mais informações, acesse as páginas do Instagram @assossiacaokasadosutista e @sv.prado.
Edição n.º 1943
