Padre André Marmilicz: Todos somos chamados a trabalhar na vinha do senhor
A partir da parábola dos trabalhadores da vinha, a coluna reflete sobre a lógica da misericórdia de Deus, que não remunera por méritos.
Os rabinos, que eram os guias espirituais de Israel, ensinavam: ‘quem cumpre um preceito, ganha um advogado, quem pratica uma transgressão, ganha um acusador. Todos os julgamentos de Deus estão na base da medida por medida’. Segundo essa mentalidade, Deus não dá nada gratuitamente; quem quer a sua bênção deve merecê-la. Alguém do povo simples objeta: ‘A Bíblia diz que Abraão foi chamado por Deus quando ele ainda era pagão, e, portanto, não era ainda um justo’. Mas os rabinos, horrorizados, respondem: ‘Não! Abraão com certeza tinha praticado boas ações para ter o mérito da vocação!’ O fariseu se sente em segurança porque ‘trabalha muito’, observa escrupulosamente todas as prescrições da lei e tem certeza que qualquer ação de fidelidade é computada como ‘mérito’ e está registrada nos livros do céu.
Na parábola dos trabalhadores da vinha, Jesus quer eliminar definitivamente da mente dos homens esta forma de relacionamento com Deus. Ele nunca se cansa de sair ao encontro do homem, mesmo quando ele falha em todos os encontros. E mais: ele não remunera pelos méritos próprios. Ninguém poderá julgar-se credor dele. A única atitude que deve ser tomada, diante do Pai que está nos céus, é aquela da criança que não se prevalece de nenhum direito, não merece nada, tem sempre os olhos voltados para o pai, esperando alegremente pelos seus presentes.
Todos são convidados a trabalhar na vinha do Senhor. Alguns chegaram mais cedo, logo de madrugada; outros um pouco mais tarde, pelas 9h. Outros ainda no meio-dia, ou as 15h e finalmente, um grupo no fim da tarde, ou seja, as 17h. Na parábola dos trabalhadores da vinha, os primeiros pensavam que tinham direito a receber mais do que os que chegaram no fim da tarde, mas a remuneração é igual para todos. Num primeiro momento pode parecer muito injusto pagar o mesmo para todos. Essa é a ótica dos homens, mas, não é o modo de Deus ver as coisas. Para ele, todos tem os mesmos direitos, e mais do que isso, o trabalho na vinha sempre aguarda novos trabalhadores, mesmo que cheguem no final do expediente.
Na verdade, através dessa parábola, Jesus quer falar dos trabalhadores do Reino de Deus. Em vez de sentir-se tristes por terem recebido a mesma recompensa que os últimos, eles deveriam sentir-se alegres, felizes e agradecidos. Os trabalhadores da madrugada tiveram a graça de descobrirem a beleza do compromisso com o Reino, desde a sua mais tenra idade. Logo cedo se colocaram abertos para a vida de comunidade e assim passaram toda a sua vida. Outros, talvez na juventude e tem aqueles que apenas no final de suas vidas, puderam saborear a alegria de trabalharem pelo reino de Deus. Não existe mérito pelas ações realizadas, mas apenas gratidão pelo bem que puderam realizar nestes anos de trabalho missionário.
A lógica de Deus não analisa as pessoas de acordo com suas ações, contabilizando pontos para garantir o céu. Mas, movido por um coração cheio de misericórdia, quer que todos possam um dia sentir a alegria de trabalharem na construção do seu reino. Não importa quando, mais cedo ou mais tarde, cada um na sua hora, vivenciará as belezas do trabalho na vinha do Senhor. Deixemos Deus ser Deus, na sua infinita misericórdia.
Edição n.º 1950
