Na última coluna, escrevi sobre um movimento que já começa a redesenhar a Região Metropolitana de Curitiba. Enquanto a capital tende a perder população nas próximas décadas, municípios vizinhos seguem crescendo, e Araucária está entre eles.

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Naquele momento, a discussão era principalmente sobre qualidade de vida, desenvolvimento urbano e a capacidade das cidades de se tornarem lugares onde as pessoas não apenas trabalham, mas escolhem viver.

Agora, uma outra mudança em curso no país acrescenta uma nova dimensão a essa discussão: a reforma tributária.

Durante décadas, municípios com forte atividade industrial, como Araucária, construíram parte importante de sua capacidade de arrecadação a partir da riqueza gerada dentro de seu próprio território. É uma lógica que ajudou a transformar cidades industrializadas em importantes polos econômicos.

Porém, a tendência é que reforma tributária comece a alterar essa equação. Com a criação do IBS, o Imposto sobre Bens e Serviços, ganha força o princípio do destino. De forma simplificada, passa a importar mais onde o consumo acontece e menos onde o produto foi produzido ou onde está localizada a empresa responsável pela operação.

Além disso, a população ganhará peso relevante na distribuição de parte dos recursos entre os municípios.

Pode parecer apenas uma mudança tributária, mas seus efeitos vão muito além dos impostos. Ela muda, em alguma medida, a lógica de competição entre as cidades.

Se durante muito tempo produzir riqueza, atrair empresas e gerar empregos foram alguns dos principais pilares para fortalecer a arrecadação municipal, daqui para frente haverá um incentivo adicional: atrair pessoas.

A justificativa é simples: pessoas moram, consomem, utilizam serviços, abrem negócios, formam famílias e movimentam a economia local.

E isso cria uma reflexão especialmente importante para Araucária. Somos uma das maiores forças industriais do Paraná. Todos os dias, milhares de pessoas vêm para cá trabalhar. Nossa indústria gera empregos, renda e oportunidades que ultrapassam os próprios limites do município.

Mas quantas dessas pessoas escolhem também morar aqui?

Essa pergunta, que na coluna anterior estava relacionada à imagem e à qualidade de vida da cidade, passa a ter também uma dimensão econômica.

No novo cenário, ser uma cidade excelente para produzir continuará sendo fundamental. Mas ser uma cidade desejada para viver poderá se tornar cada vez mais estratégico.

Isso significa pensar em habitação, mobilidade, segurança, educação, serviços, espaços públicos, comércio e qualidade urbana não apenas como consequência do crescimento econômico, mas como parte da própria estratégia de desenvolvimento.

Por um lado, Araucária possui uma vantagem importante nessa disputa.

Já temos uma base econômica extremamente sólida. Temos empregos, indústria, localização estratégica e proximidade com Curitiba. O desafio talvez esteja justamente em transformar essa força econômica em capacidade de atração.

Porque existe uma diferença importante entre uma cidade que recebe milhares de trabalhadores todos os dias e uma cidade onde essas mesmas pessoas desejam construir sua vida.

A primeira gera empregos. Já a segunda gera empregos, consumo, pertencimento, crescimento populacional e um ciclo mais completo de desenvolvimento.

A reforma tributária ainda terá uma longa transição, e seria precipitado afirmar que municípios industriais perderão sua importância ou sua capacidade de arrecadação. Não é disso que se trata.

A questão é perceber que as regras estão mudando. E mudanças como essa deveriam fazer parte do planejamento de longo prazo das cidades.

Se Araucária conseguir combinar sua força industrial com qualidade de vida e capacidade de atrair novos moradores, talvez esteja diante de uma oportunidade rara: deixar de ser reconhecida apenas como uma das cidades que mais produzem riqueza no Paraná para se tornar também uma das mais desejadas para viver.

Na próxima década, talvez a disputa entre municípios não seja apenas por empresas. Será também por pessoas.

Edição n.º 1946

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