Aos 17 anos, Lennon recebeu um chamado que ainda não sabia nomear. Descobriu que um tio e uma tia praticavam Umbanda e, curioso, foi conhecer o TUCA — Terreiro de Umbanda Cruzeiro das Almas. Uma simples casa de madeira, mas com uma energia que o marcou para sempre. Ficou sete anos.

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Nesse tempo estudou Engenharia Civil, trabalhou na empresa do pai biológico e viu nascer Kauan e Nathan. A espiritualidade, porém, insistia. Seu primeiro pai de santo, Pai Edinei, dizia que ele tinha uma “estrelinha”. Uma missão sacerdotal esperava. Até que Exu Caveirinha — entidade espiritual que acompanha Lennon de perto — anunciou a Exu Tranca-Rua das Almas, outro mentor espiritual da casa que ele frequentava: Lennon está pronto.

Em 1º de agosto de 2015 nasceu o TUCU — Terreiro de Umbanda do Caboclo Ubirajara. Lennon tinha 25 anos, acabara de se formar, estava desempregado, a empresa do pai havia falido e tinha dois filhos pequenos. Dinheiro para abrir um terreiro? Quase nenhum. Mas as mãos começaram a aparecer. Amigos e familiares doaram materiais. Nove médiuns iniciaram a caminhada.

A pergunta era: Curitiba ou Araucária? A resposta veio de Exu Caveirinha: “Vamos abrir em Araucária. Lá tem apenas um terreiro com fundamentos parecidos. Seremos luz onde há escuridão.” E foi em Araucária que a história floresceu.

No primeiro endereço, uma casa de madeira. Na parede, a marca de uma caveira queimada. Dentro, uma bengala encostada. Para Pai Lennon, um sinal. Depois vieram outras casas, até o grande barracão onde permaneceram seis anos. Quando o dono decidiu vender, a resposta espiritual foi direta: “Meu filho, agora vamos comprar e construir.” Em 30 dias acharam o terreno. Em cinco meses ergueram a sede atual, na Rua Jandaia do Sul, 20, bairro Iguaçu.

Mas a história que melhor traduz essa caminhada aconteceu antes da construção. Durante a preparação para a iniciação, Lennon precisava montar o altar e não tinha dinheiro para as imagens. Então os telefonemas chegaram. Pai Edinei, familiares… uma a uma surgiram Oxóssi, Oxalá, Iemanjá, Xangô, Omolu, Nanã, Oxum, Ogum e Iansã. Quando faltava Nossa Senhora Aparecida, outra ligação: uma tia tinha uma imagem antiga, consagrada por Pai Tião do Cruzeiro. Lennon olhou para tudo e disse: “Estou com o altar montado e ganhado. Agora não tem volta.” Para ele, nunca foi só sobre dinheiro. Foi sobre confiar que, ao assumir a missão, a espiritualidade encontraria o caminho.

Depois de 18 anos na Umbanda e 11 como sacerdote, Lennon enxerga sinais em tudo. Até nas coincidências: em uma das antigas casas chegou um IPTU em nome de Ubirajara — o mesmo nome do Caboclo que guia a casa.

Vando Fortuna: TUCU — A Umbanda do Caboclo Ubirajara em Araucária
Foto: Divulgação

No TUCU a caridade é o coração. Atendimentos espirituais gratuitos. Arrecadação de alimentos, cestas básicas e ações para crianças — rua fechada, brinquedos, bolo, doces e presentes —, tudo mantido pelos médiuns e frequentadores. “Melhor que hoje, só amanhã”, ensina o Caboclo Ubirajara. Lema que inspira o bem ao próximo e à Araucária.

Lennon sabe que a intolerância muitas vezes nasce da falta de conhecimento. Por isso cuida da relação com a vizinhança, mantém as oferendas no Jardim dos Orixás e zela pela limpeza. Os princípios da casa são claros: caridade em primeiro lugar, atendimento gratuito, ausência de julgamentos e cuidado com o bem-estar espiritual, físico e mental. Não trabalham com sacrifício animal, amarrações, separações, bebidas alcoólicas ou adivinhação.

Ele acredita que Araucária precisa oferecer mais espaço e apoio às comunidades religiosas, inclusive para regularização. Mas também defende responsabilidade: “Religião não deve invadir a fé do outro.” Às quintas-feiras, a partir das 20h (portões abertos às 19h30), o TUCU recebe quem busca atendimento.

Quando não havia dinheiro, apareceram mãos. Quando uma porta fechou, surgiu outro caminho. Quando o espaço ficou pequeno, veio o terreno. E quando parecia impossível construir, a espiritualidade respondeu: “Esteja lá, e eu darei condições.”

Essa é a essência que Pai Lennon quer deixar: fazer o bem, facilitar a caminhada do outro e compreender que a caridade também mora em um conselho, em uma escuta, em um olhar atento. Porque, para ele, não existe certo e errado. Existe aquilo que é certo para você.

E talvez seja por isso que o TUCU continua crescendo em Araucária: não apenas como terreiro, mas como um lugar onde quem chega pela primeira vez descobre que os olhos brilham e o coração reconhece aquele espaço não apenas como um templo, mas como uma “casa” que serve de abrigo espiritual amoroso a quem necessita e também de escola para almas curiosas em evoluir, como a de Pai Lennon há alguns anos.

Mais informações: Instagram @umbandatucu

Edição n.º 1948

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