Vando Fortuna: Terreiro do vô Benedito no Thomaz Coelho
A coluna Riqueza da Alma conta a história do Templo Bené, terreiro de Umbanda do Thomaz Coelho que nasceu a partir de pessoas batendo à porta em busca de auxílio espiritual.
Algumas casas de Umbanda começam com um terreno. Outras, com dinheiro, planejamento e uma estrutura pronta.
O Terreiro do Vô Benedito começou com pessoas batendo à porta.
Filipe foi criado em berço evangélico e frequentou a Igreja Metodista até os 18 anos. Depois de sair do quartel, deixou Volta Redonda (RJ) e veio para Araucária. Aqui conheceu o Kardecismo. Pelo Kardecismo, encontrou a Umbanda.
E se encontrou.
Depois de passar por outras casas, onde exerceu funções como capitão e pai pequeno, Filipe ficou sem terreiro. Até que, em menos de um mês, cerca de cinco pessoas bateram em seu portão carregando seus materiais de Umbanda e pedindo auxílio espiritual.
Ele acolheu aquelas pessoas. E acolheu também o sagrado que elas carregavam.
Até que, numa quinta-feira, Exu Rei das Sete Calungas anunciou:
“O dia que nosso espaço estiver coberto, abriremos nossa casa.”
No dia seguinte, o material chegou ao portão.
Era 6 de março de 2020.
Doado por amigos que se tornariam fundadores da casa, junto com Filipe e sua esposa, o material permitiu cobrir o espaço. Naquele mesmo dia, Seu Sete retornou. E veio a decisão pelo nome: Templo Bené, em homenagem ao mentor espiritual da casa, Vô Benedito de Aruanda.
Mas a história sacerdotal de Filipe ainda teria um novo capítulo.
Em 2022, quando o terreiro já tinha dois anos, Filipe ainda era pai pequeno e realizava apenas o Anjo da Guarda dos filhos. Sentiu então a necessidade de procurar o antigo amigo Pai Juliano de Airá, sacerdote do Ilè Intilé Obaaláàfin Axé Airá, ligado ao Candomblé Ketu e com longa experiência na Umbanda.
No jogo realizado por Pai Juliano, segundo Filipe, veio uma resposta decisiva: ele não era de Candomblé, mas sacerdote de Umbanda. Seus cruzamentos foram refeitos dentro das leis da Umbanda e ele se tornou Pai de Santo de Umbanda Filipe de Oxalá de Aruanda.
Hoje, cerca de 20 pessoas fazem parte do grupo da casa e aproximadamente dez frequentam a assistência. A cada quinze dias, aos sábados, há desenvolvimento, passes, consultas e trabalhos espirituais. Tudo gratuitamente.
No Templo Bené, Oxalá é o Orixá regente. Vô Benedito é o mentor espiritual e Cacique Sete Flechas, o dirigente. Filipe também conta com a orientação de Irmão Kalebe.
Dele, guarda duas frases:
“Só sabemos para onde vamos, quando descobrimos de onde viemos.”
E:
“Viva o presente, para que no futuro, não se arrependa do passado.”
A Umbanda, diz Filipe, ensinou que a verdadeira força está na humildade. Mudou seu olhar sobre o outro, substituindo julgamento por empatia.
Quem chega ao terreiro encontra acolhimento. Filipe define a casa como um “hospital espiritual”: um lugar que não faz o mal, não cobra pelos atendimentos e busca ser ponto de apoio e luz para Araucária.
O preconceito ainda existe, reconhece. Mas diminui quando a comunidade conhece o trabalho de perto.
Para o futuro, deseja que o Templo Bené preserve a mesma essência de quando tudo começou: simplicidade e caridade.
Aos filhos da casa, deixa um ensinamento:
“Honrem o chão que pisam e pratiquem o bem diariamente.”
Talvez seja por isso que o Terreiro do Vô Benedito tenha começado de uma maneira tão bonita.
Não foi primeiro a casa que chamou as pessoas.
Foram as pessoas que chegaram à porta — e a casa nasceu para acolhê-las.
Instagram: @templobene.
Edição n.º 1951
