Há casas religiosas que chegam a um território procurando apenas um lugar para existir. Outras chegam e, com o tempo, percebem que permanecer também é uma forma de resistência.

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No Capela Velha, em Araucária, está o Ilê Ketu Asé Obá Ayra.

Fundada no ano 2000 e estabelecida no município desde 2002, a casa nasceu cercada de dificuldades. Preconceito, racismo religioso e limitações econômicas fizeram parte dessa caminhada desde o começo.

Mas o Ilê permaneceu.

Segundo o Babalaxé Pedro de Oxum, o Babalorixá Márcio, Oba Ayrá Gofemi, foi o grande responsável por trazer o Ilê para Araucária, a partir do terreno adquirido em parceria com sua mãe. Desde então, a casa procura desenvolver suas atividades de forma independente, com recursos próprios.

O Ilê cultua a Nação Ketu e também realiza toques de Umbanda e Quimbanda, em momentos próprios do calendário da instituição. À frente da casa está o Babalorixá Oba Ayrá Gofemi, acompanhado por lideranças como a Yalaxé Adriana de Oyá, o Babalaxé Pedro de Oxum, o Babakekerê Marcelo de Oxum, o Axogun Petterson de Ogum e a Yalaxó Edna de Yemanjá.

E é Pedro quem me conta um pouco dessa história.

Sua função dentro do Ilê está ligada à manutenção do equilíbrio da casa e ao desenvolvimento de suas atividades religiosas. Sua própria aproximação com o Candomblé veio pela família: sua mãe e seu irmão já eram praticantes da religião. Mas foi em um momento delicado da vida, na busca por paz interior, que decidiu entrar para a religião.

Talvez por isso ele saiba tão bem o peso de permanecer.

“Manter a Instituição no Município, para mim, é motivo de resistência.”

A frase ganha ainda mais força quando ele fala sobre o território. O Ilê está em uma região que considera predominantemente branca e onde, segundo ele, as religiões de matriz africana ainda não fazem parte da diversidade cultural percebida por boa parte da população.

E o racismo, diz Pedro, não aparece sozinho. Ele traz consigo falta de recursos, dificuldade para estabelecer parcerias, desconhecimento sobre as práticas religiosas e obstáculos no diálogo com o Poder Público.

Por isso, continuar exercendo a fé também é preservar memória.

Para o Ilê, guardar o conhecimento dos antepassados é uma maneira de proteger a ancestralidade e garantir que ela chegue à juventude. A casa busca fazer isso também por meio de atividades culturais e pela transmissão do conhecimento a quem deseja aprender.

Quem chega é recebido. Os atendimentos são preferencialmente agendados, e as festividades são organizadas anualmente para que a comunidade possa conhecer a casa e participar dos momentos de louvação aos orixás.

No fim, a mensagem do Ilê para Araucária é maior do que o direito de simplesmente acreditar.

Liberdade religiosa, para a casa, é poder viver a própria espiritualidade com dignidade, segurança e respeito.

Sem preconceito. Sem discriminação. Sem racismo religioso.

Porque, às vezes, permanecer não é apenas ficar.

É resistir. É lembrar. É ensinar.

E é dizer, com a própria existência: nós também fazemos parte desta cidade.

Edição n.º 1952

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