A versão araucariense de Auto da Compadecida

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E se os homens tidos como poderosos, públicos e mesmo somente os metidos de Araucária decidissem render uma homenagem póstuma a Ariano Suassuna, que faleceu esta semana? Fiquei a imaginar isto desde que foi confirmado o falecimento do escritor e dramaturgo pernambucano na quarta-feira, 23 de julho.

Como não poderia deixar de ser, o título escolhido seria Auto da Compadecida, talvez a obra mais conhecida de Suassuna. Os homens públicos de Araucária se reuniriam na Praça da Matriz para discutir quem ficaria com qual papel e também se faríamos uma adaptação pura e simples da peça ou se faríamos uma releitura livre. O encontro seria marcado para logo depois do almoço, já que volta e meia a Praça fica as escuras sem motivo aparente quando anoitece.

Reunidos na escadaria da Igreja da Matriz, Jester Furtado se levantaria exigindo o papel de diretor. Alegaria que já fez isso antes e proporia uma releitura livre da peça original. Ninguém se oporia, mas ficariam com a impressão de que agora ele poderia querer favorecer o prefeito Olizandro na definição dos papéis. Sem nenhum talento aparente, Waldiclei Barboza pediria o papel do palhaço. Aquele que fica entrando e saindo da trama, conversando com o público e os conduzindo de um ato para o outro.

Os vereadores Dr. Josué e Betão brigariam para ver quem indicaria mais atores para o espetáculo. Olizandro se levantaria e pediria para ser João Grilo. Alegaria que sabe arranjar confusões, mas que no final sempre se sai bem delas. O pessoal chiaria. O papel de Chicó, o personagem que adora contar mentiras e que quando questionado a respeito só responde “não sei, só sei que foi assim” seria o mais disputado. Todos os políticos locais, sejam do Legislativo ou do Executivo, reivindicariam o direito de interpretá-lo. Uma discussão se instalaria e a definição ficaria para depois.

Jester gritaria e quem quer ser o Padeiro? Como é o papel do padeiro (?), perguntariam. Ele é aquele homem rico e avarento. Hissam então se levantaria e diria que, embora não se enquadrasse no perfil, poderia fazê-lo. Ninguém se oporia. Haveria certa confusão na hora de escolher a Mulher do Padeiro em virtude da quantidade de pessoas pretendendo o papel. Até Genildo Carvalho e Victor Cantador se levantariam. Victor, inclusive, alegaria que já teve padaria e poderia contribuir melhor com a peça. Diante da bagunça instaurada na escadaria da Matriz, a escolha ficaria para depois.

E Padre João, quem quer fazer? Ele chefia a paróquia de Taperoá, também é avarento e visa somente o lucro material. Cabrini, Pedrinho da Gazeta e Esmael Padilha se proporiam a encenar o papel, alegando que já tem experiência em chefiar distritos. Novamente haveria confusão e a escolha do intérprete seria adiada.

E o papel de Severino do Aracaju, quem quer fazer, perguntaria Jester. Ele é um cangaceiro poderoso que mata um monte de gente, acrescenta. Inicialmente ninguém se interessa. Afinal, não pegaria bem fazer um papel tão mal assim. Só quando é explicado que no julgamento final seus crimes são perdoados e ele vai para o Paraíso é que os candidatos surgem. Clodoaldo grita mais alto e pergunta se todas as sacanagens são perdoadas? Se fosse assim, ele ficaria com o papel. Porém, como ele não era o único interessado, a escolha é adiada.

Os próximos papéis em jogo são o da Compadecida e o de Emanuel. A primeira é a própria Nossa Senhora. Bondosa e misericordiosa. O segundo é Jesus Cristo, que na peça é o juiz do povo, que analisa os casos com sabedoria, imparcialidade e misericórdia. De cara, Paulo Horácio levanta e diz que reúne os atributos necessários para o papel. Uma risada geral toma conta da escadaria. Vanderlei Cabeleireiro reivindica a interpretação de Emanuel, alegando que na peça ele é feito por um negro. Logo, como o vereador é o único político negro com mandato na cidade, seria o cara certo para o trabalho. Um burburinho toma conta da Praça e o próprio Vanderlei retira sua sugestão. Rosane então se levanta e pede para fazer a Compadecida e sugere que Requião faça o Encourado, até por conta da fama que lhe é atribuída, de ser próximo do dito cujo. Novo bate-boca e a escolha dos papéis é adiada.
Sem consenso para a maioria dos papéis, o palhaço aqui entra em cena. A imagem da escadaria é congelada com os poderosos de Araucária batendo boca e Waldiclei diz: “Bem vindos a Araucária, aqui não há união entre os poderosos para nada”. As cortinas do espetáculo começam a se fechar e…fim!

Comentários são bem vindos em www.opopularpr.com.br. Até uma próxima!