Araucária: uma cidade de tantos reencontros!

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Quando reencontramos um amigo que não vimos há meses, o sentimento de felicidade é enorme, não é mesmo? Agora imagine como seria matar a saudade de um familiar que você não vê há muitos anos ou conhecer algum parente que você nem sabia que existia. São reencontros que proporcionam histórias inacreditáveis e emocionantes, iguais as que costumamos ver naqueles programas de auditório, que invadem a TV nas tardes de domingo.

O que você vai acompanhar nesse especial, são duas dessas histórias da vida real, contadas por pessoas que vieram parar em Araucária, de muito longe, em busca de seus familiares. A cidade que acolhe, inspira e abraça todos, é também a cidade de tantos reencontros.

Grupo de poetas une irmãos que estavam separados há mais de 40 anos

A história do poeta araucariense José Arildo Vieira, 68 anos, é daquelas dignas de roteiro de novela. Quando criança ele foi “sequestrado” pelo próprio pai e separado dos irmãos, vindo a reencontrá-los mais de 40 anos depois. Ele é o mais velho de oito irmãos, quatro deles (Eunice, Leonardo, Anacleto e Alzira) do primeiro casamento do pai e três do segundo (Ernesto, Iransolei e Valmir). “Convivi com eles até meus 9 anos, depois teve uma separação e fiquei com meu pai e sua segunda esposa, viajamos por vários cantos do Brasil, sem fixar residência em nenhuma cidade. Um tempo depois minha madrasta também se separou dele e foi embora, levando meus irmãos (filhos dela), ainda muito pequenos”, conta Arildo.

Essa história de vida começou quando Arildo tinha 9 anos, a mãe saiu de Ponta Grossa para voltar à casa dos seus pais, em Campina Alta, município de Tibagi. “No dia da mudança eu estava em cima do caminhão e quando eu vi meu pai na rua, acenei pra ele, então ele pediu que o caminhão parasse e solicitou à minha mãe que eu descesse, porque tinha que ficar, terminar os estudos pra pegar meu diploma do 4º ano primário e depois disso me levaria até a casa do meu avô. Ela concordou. No mesmo dia em que ela saiu de casa, o pai vendeu tudo que a gente tinha e nós viajamos, contou que faríamos uma viagem de férias. A partir daquele dia iniciamos a jornada por muitos lugares desse Brasil, eu, ele, e a mãe dos meus outros irmãos, que viriam a nascer depois”, relembra.

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Foto: Arquivo pessoal de José Arildo.

Um dia a madrasta de Arildo também se separou do seu pai e levou os filhos, e a partir de então ele perdeu o contato com os irmãos. Pai e filho seguiram viajando. “As viagens eram uma fuga, meu pai tinha me sequestrado e sabia que poderia ser preso, já que havia uma denúncia contra ele, por isso não parávamos em nenhuma cidade. Meu pai faleceu dia 29/12/74 e no dia 01/01/75, eu, com 23 anos, voltei para o Paraná, onde trabalhei em várias cidades. Em 1983 fui para Curitiba, trabalhei em muitos locais e depois vim parar em Araucária. Nessa época eu já tinha contato com meu irmão por parte de pai e mãe. Ele morava aqui e eu sempre vinha visitá-lo. Em 1995 também me mudei para cá, montei uma mercearia, depois vendi e fiquei sócio gerente de um posto de gasolina. Depois trabalhei em várias empresas de Araucária e Curitiba, na área de segurança. Todo tempo eu pensava em reencontrar meus irmãos do segundo casamento do meu pai. Acreditava que eles poderiam estar morando aqui. Pedi pra Deus me mostrar meus irmãos, pois queria muito reencontrá-los”, conta.

E esse dia estava perto. Arildo ainda trabalhava em Curitiba, quando começou a participar de encontros do grupo de poetas na Biblioteca Pública de Araucária – BIPA e logo foi convidado a assumir a coordenação. “Um dia eu estava na BIPA e a falecida Jacqueline Carteri, coordenadora na época, disse que recebeu a visita de um rapaz que gostaria de participar do grupo de poetas, mas eu não estava, então ele disse que voltaria em outro dia. Perguntei o nome dele e a Jacque respondeu: Ernesto da Silva Maciel! Meu coração disparou, senti falta de ar. Ela achou que eu estava passando mal, mas a tranquilizei, dizendo que estava tudo bem. Nos dias que se seguiram não contei nada para meus irmãos, pois eles sabiam da história. Passei algumas noites sem dormir, de tanta ansiedade. Além do Ernesto (Erne), tinha o Valmir e o Irã, e eu não parava de pensar que eles também poderiam estar em Araucária”, comenta o poeta.

Ele relata que naquele sábado seguinte, chegou na biblioteca ansioso. O Erne apareceu e a Jacqueline o encaminhou até a sala onde o grupo estava reunido, fez as apresentações, mas Arildo não falou nada, preferiu ir com cautela, porque até onde sabia, os irmãos acreditavam que ele era tio deles e não irmão. “Ao ouvir meu nome, ele não ligou os fatos. Quando cheguei em casa contei para a todos sobre o encontro com o Erne. Minhas irmãs ficaram empolgadas, conseguiram o endereço e foram até a casa dele, porém não o encontraram. A mãe do Erne as atendeu e questionou o motivo da visita. Minhas irmãs disseram que o conheciam e queriam conversar com ele, então ela pediu que retornassem outro dia. Elas não falaram nada pra mim. Quando retornaram na casa e encontraram o Erne, novamente disseram que queriam conversar, então ele ficou bravo, não quis saber de papo porque não as conhecia. As duas foram embora, porém dias depois voltaram lá e acabaram revelando que eram irmãs dele por parte de pai. Erne respondeu que não tinha nenhum irmão além dos que convivia. Então elas perguntaram se ele conhecia o José Arildo Vieira, do grupo de poetas e a resposta foi sim, decidiram então revelar que eu era irmão delas. A mãe do Erne ficou nervosa quando ele a questionou se aquela história que estava ouvindo era verdade, houve uma pequena discussão. No próximo encontro do grupo o Erne chegou na biblioteca, olhou pra mim e disse: ‘Então, você é o meu irmão?’. Eu confirmei! Enquanto isso, o Valmir e o Irã cobravam da mãe, por terem sido criados achando que eu era tio deles e não irmão”, relata.

Arildo conta ainda que alguns dias se passaram até que o Erne chegou pra ele e disse que era hora de todos se reunirem. “Foi um encontro marcado por muita emoção. Pude rever o Valmir e o Irã. Conversei muito com a mãe deles e depois todos nos abraçamos. Hoje, graças a Deus, convivemos todos bem, nos visitamos e sempre nos encontramos em festas de aniversário e outras ocasiões. Somos uma família unida e feliz”, descreve o poeta.

Neuza percorreu mais de 2.700 km para conhecer a família do tio, afastado da família há 40 anos

Neuza Maria da Silva morava em Taquarana, no estado de Alagoas, até o ano de 2008, quando desembarcou em Araucária para conhecer a família do tio Laudemir Domingos, que só sabia que existia através das histórias contadas por seu pai. E o que era pra ser uma simples visita para um encontro de família, acabou se tornando o novo lar da taquaranense.

Esse final feliz percorreu um espaço de tempo de 40 anos para acontecer, isso sem mencionar a enorme distância que separava os familiares: mais de 2.700km. Neuza conta que desde criança tinha vontade de sair de Alagoas e tentar uma vida melhor em outro estado, mas seus pais eram agricultores e as condições de vida da família eram muito precárias.

“O tempo passou rápido, fui crescendo e sempre ouvindo meu pai contar que ele tinha um irmão desaparecido, que havia saído de casa com 19 anos de idade, e ninguém mais teve notícias suas e nem sequer sabia se ele ainda estava vivo. Certo dia recebemos a visita de um genro desse meu tio, dizendo que ele (tio) estava vivo, procurando a família e queria muito nos encontrar. A partir daí, conversamos muito e conseguimos marcar um encontro. Meu tio foi sozinho para Alagoas rever o irmão que não via há tantos anos e conhecer sua família. Depois retornou para Araucária. Foi uma grande emoção!”, relembra Neuza.

Araucária: uma cidade de tantos reencontros!
Foto: Raquel Kriger de Paiva. Neuza, (de calça jeans no centro da foto) com parte da nova família que ganhou.

Ela disse que ficou tão feliz que logo decidiu vir para Araucária conhecer o restante da família. Ficou encantada com a cidade e recebeu o convite para morar com os tios e primos e não pensou duas vezes. Neuza ficou com sua nova família por 9 anos, até que conseguiu financiar seu próprio apartamento e se mudou. “Meu tio Lauremir faleceu há dois anos, mas me deixou uma linda família. Os seis filhos dele são os irmãos que eu nunca tive, todos me acolheram muito bem, fizeram de tudo por mim. Lembro que quando cheguei em Araucária, com 23 anos, não sabia nada da vida e nunca tinha trabalhado. Aqui eu estudei, fiz cursos e consegui meu primeiro emprego. Minha família continua lá em Alagoas, meu pai também é falecido, eles não conhecem o Paraná e infelizmente não tenho condições de trazê-los agora, mas esse é um sonho que pretendo realizar em breve. Quero todos aqui comigo, nessa cidade que tanto amo”, disse.

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