Pela primeira vez em um concurso de beleza realizado em Araucária, uma mulher trans foi inscrita para participar. Jullyani Gabriely Rodrigues, 27 anos, encarou a passarela do Miss Araucária com total segurança e graciosidade, que encantou a todos. “Desde o primeiro momento que me inscrevi no concurso, a intenção nunca foi ganhar, mas sim, criar um impacto social na nossa cidade. Nasci em Araucária e desde criança me sinto mulher. Me recordo de um dia, nos meus 8 anos, perguntando para minha mãe porque eu não era uma mulher. E ela, não sabendo como lidar com a situação, me levou a uma psicóloga, que disse que eu estava tendo uma crise de ciúmes por conta de ter uma irmã menina mais nova.  Ela não tratou isso como um caso de transexualidade. Poderia ter sido tudo diferente. Mas hoje aprendi que as coisas acontecem no seu tempo. Logo percebi que não tinha nada de errado comigo, o errado estava na forma como as pessoas me enxergavam.  Quando criei forças para realmente desabrochar a mulher que existia dentro de mim, assassinaram minha tia transexual (irmã mais nova da minha mãe) e isso me repreendeu por mais um tempo. Nuna tive um pai atuante e sempre temia perder minha mãe e o apoio e carinho dela se me assumisse. O velório da minha tia foi a libertação pra mim, quando a vi no caixão, vestida de terno, com o cabelo cortado curto e sem maquiagem, fiquei muito triste e revoltada. Ela lutou até o último minuto para ser aceita como uma mulher e na hora da sua partida a vestiram de homem. Foi então que criei forças e trouxe à tona a mulher que existia dentro de mim”, relatou.

Jullyani se surpreendeu com a reação de algumas pessoas, principalmente da mãe, que a acolheu e a aceitou, independente da sua condição sexual. Hoje ainda luto contra uma sociedade de mente pequena e preconceituosa, que ainda associa a imagem de uma mulher trans à prostituição e drogas.  Graças a Deus nasci com o dom de transformar a autoestima das pessoas, trabalho na área da beleza como Hairstylist há 11 anos”, comentou.

A candidata ressaltou que sempre foi fascinada pelo mundo da moda e como já trabalha neste meio, decidiu deixar de lado o medo do preconceito e da rejeição e se inscreveu para o Miss Araucária. Pensei que já havia enfrentado muitas batalhas na vida, esta seria apenas mais uma, caso não desse certo. Felizmente conheci a organizadora do concurso, a Gabi Rocha, expliquei a ela que eu era uma mulher trans e se teria algum problema em participar do concurso. Ela abriu um sorriso enorme e disse que seria uma honra contar com minha participação no Miss. Essas palavras ficarão guardadas na minha memória e no meu coração para sempre.  Foi emocionante e nem consigo descrever a sensação que senti na passarela. Foi um misto de medo e alegria ao mesmo tempo. Não ganhei nenhum título, mas me sinto uma vencedora por ter quebrado mais essa barreira na minha vida e por ter feito história em um concurso de beleza de Araucária, que pela primeira vez abriu espaço para participação de uma concorrente trans”.

Foto – Carlos Poly

Texto: Maurenn Bernardo

CONTEÚDO RECOMENDADO

VEJA TAMBÉM

Compartilhe

Share on twitter
Share on facebook
Share on telegram
Share on whatsapp