Pesquisas recentes apontam que os problemas de saúde mental estão aumentando em um ritmo preocupante durante a pandemia do novo coronavírus. O isolamento social, que privou as pessoas do convívio social e do contato físico, desencadeou sérios problemas emocionais como estresse, ansiedade, depressão, síndrome do pânico, entre outros. O período de instabilidade na vida cotidiana e de alterações cada vez maiores na rotina, aliado ao medo e a insegurança, estão fazendo com que milhares de pessoas busquem ajuda de profissionais. Diante deste cenário difícil, as psicólogas araucarienses Fabíola Karas e Luciana Bialeski, afirmam que a pandemia despertou sentimentos preocupantes nas pessoas como o medo de morrer, de perder quem ama, de ir à falência, de não saber lidar com o aprendizado dos filhos, e ainda a mudança drástica na rotina.

“Muitas pessoas estão com medo por estarem diante de algo desconhecido”

“Os atendimentos aumentaram consideravelmente desde que a pandemia começou, porque as pessoas foram afetadas psicologicamente em função da mudança na rotina, nas relações interpessoais e, principalmente, porque estão diante de algo desconhecido. Tenho muitos pacientes com crise de ansiedade, síndrome do pânico, que relatam o medo do contágio rápido, de não saber como lidar com essa situação. São pessoas das mais variadas faixas etárias”, comenta Fabíola. Segundo ela, muitas mães procuram atendimento psicológico porque, com a suspensão das aulas, toda a família precisou se reorganizar para seguir o cotidiano da criança, e ainda enfrentar o desafio do processo educacional por um método à distância, que também não faz parte da rotina da maioria dos pais. “Muitos adultos não estão sabendo lidar com o isolamento social, o fato de não poder ter esse contato com as pessoas que estão mais próximas, o fato de as crianças estarem sob sua inteira responsabilidade, e pasmem, muitos pais não sabem lidar com isso. As crianças passavam 8 horas dentro de uma escola, em período integral, outras menores de 3 e 4 anos ficavam o dia todo na creche. No final da tarde o pai ou a mãe iam buscar o filho e daí vinha a rotina do banho, tarefa e dormir, no outro dia, tudo de novo, e isso efetivamente não está acontecendo. Alguns pais, em casa, estão tendo que se reposicionar em relação à educação de seus filhos quase que 24 horas por dia. Então também procuram a terapia no sentido de como cuidar do filho. E não são apenas os pais que estão ansiosos, temos crianças também, em um grau de ansiedade muito grande”, acrescentou a psicóloga.

Ela reforça que nesse momento é importante criar uma nova rotina na casa, de impor à criança um horário para acordar, para fazer suas refeições e para fazer as tarefas da escola. “Diante disso tudo, tenho orientado meus pacientes a tentar manter o controle sobre suas ações, sobre essas situações que estão nos desafiando dia a dia. Basicamente, viver um dia de cada vez. Tenho trabalhado muito com uma frase, na verdade é uma palavra, que se chama ‘acalme-se’, onde cada letra tem um significado, e isso tem tido extrema importância. As pessoas hoje buscam a terapia para que, de alguma forma, consigam minimizar todas essas questões que estão causando sofrimento, que estão causando angústia. Então, elas buscam serem ouvidas, serem respeitadas, serem auxiliadas e acolhidas. É importante lembrar sempre que, apesar de tudo que estamos vivendo, devemos nos manter firmes e com propósitos. As pessoas que estão sofrendo devem buscar auxílio sim, porque é importante falar com um profissional, porque ele tem esse conhecimento para encaminhar algumas situações, sejam elas através da possibilidade de medicamento, sejam elas terapias”, esclarece Fabíola.

Todo mundo está sujeito ao medo

“Muitos não tem o hábito de cuidar das emoções, o que favorece o desespero nesses períodos”

Para a psicóloga Luciana, ter saúde mental não significa estar isento dos impactos de crises na vida. Significa que desenvolvemos recursos internos e estratégias para sair mais rápido dela. “O problema é que grande parte das pessoas não têm o hábito de cuidar das emoções, o que favorece o desespero nesses períodos. Por isso que essa pandemia despertou vários medos e dúvidas e a necessidade de ajuda psicológica, bem como de um projeto de vida. A crise despertou ansiedade, fobias, estados de pânico, estafa, insegurança, depressão. A escassez se manifestou, gerando uma espécie de túnel cognitivo, limitando a capacidade de visão (saídas) e discernimento. Também veio a busca para desenvolver projetos de liderança no sentido de empreender e lidar com as pessoas. Estamos passando por uma situação que não imaginávamos e é importante entendermos que existe um processo para que isso mude, e isso exige tempo e coerência”, pondera a psicóloga.

Ela sugere algumas dicas para que as pessoas mantenham a saúde emocional: 1º Desacelera, nesse momento é preciso calma mental para decidir e a pressa pode te levar a decisões precipitadas, gerando outros problemas que você não tinha; 2º Use seu tempo com qualidade. Desacelerando, você terá mais oxigenação no cérebro e trará ideias criativas para passar por essa crise; 3º Aproveite as inúmeras ofertas gratuitas de cursos, lives, webnarios para conhecer novas oportunidades, ter dicas para sua vida, seu negócio, seu emprego: 4º Conviva amorosamente com quem ama. Resgate aquele olhar, aquela palavra, as brincadeiras com a família e amigos. Afinal, você está aqui por eles, com eles e para eles, assim como eles estão para você. Ajuste as velas e resgate o que é base (estrutura emocional) na sua vida; 5º Tenha disposição mental. O que você mais pensa se manifesta. Vigie e deixe ir pensamentos de medo e escassez; 6º Esteja em movimento. Isso significa no corpo e na mente. “Águas paradas” apodrecem e criam parasitas. Sua mente e corpo necessitam de movimento para estarem saudáveis. Acima de tudo, entenda que temos uma capacidade imensa de adaptação e criatividade, desde que deixemos a reclamação e comecemos a criação de mudanças positivas para nós e para outros”, sugere a profissional.

Sem estatísticas

O Jornal O Popular entrou em contato com as operadoras dos planos de saúde Clinipan e Unimed, solicitando um levantamento dos pacientes de Araucária que buscaram atendimento com psicólogos, desde o início da pandemia. A Clinipan informou somente que suas equipes assistenciais estão focadas no combate à pandemia e manutenção dos tratamentos dos beneficiários, mas que nesse momento não estão repassando mais nenhuma informação para a imprensa, devido ao posicionamento do Grupo NotreDame Intermédica, do qual a Clinipam passou a fazer parte desde fevereiro. A Unimed, por sua vez, disse que não seria possível passar esse levantamento, porque seus atendimentos não são segregados por município.

Texto: Maurenn Bernardo

Foto: divulgação e freepik

Publicado na edição 1221 – 16/07/2020

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