Causos misteriosos: conheça as lendas de Araucária

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Contos sobrenaturais fazem parte do imaginário popular e ajudam a construir a cultura local. Foto: divulgação

As lendas são parte importante da cultura popular, simbolizando a identidade de um povo ou lugar. Essas estórias costumam ser passadas de geração para geração — contadas por meio da oralidade — e carregam traços históricos e sociais que, de outra forma, poderiam se perder com o passar dos anos. A escritora Luciana do Rocio Mallon acredita que por trás desses contos “há um pingo de verdade, uma razão histórica. Resgatar lendas é uma maneira de estudar a história local”.

Segundo Mallon, Araucária é o cenário e origem de diversas lendas desde o século XIX. Autora do livro “Lendas Curitibanas”, lançado em 2013 pelo Instituto Memória, Luciana começou o registro desses contos por diversão e, com o passar dos anos, desenvolveu esse trabalho como forma de conservar a cultura local paranaense. “Quando criança, eu sempre perguntava para as mulheres mais velhas, que encontrava pela frente, se conheciam alguma lenda. Também trabalhei no comércio e perguntava para os clientes se conheciam causos misteriosos. Realmente, não existiram lendas difíceis porque fui anotando e pesquisando uma por uma. Como faço esta pesquisa desde criança, não tive problemas”, descreve.

Em Araucária, Luciana destaca como principais lendas “O Fantasma da Danceteria Studio Flash”, “Noiva da Cachoeira” e “Fantasma do Piano do Colégio Júlio Szymanski”. Conheça essas estórias*:

Fantasma da Danceteria Studio Flash

A danceteria Studio Flash é cenário para mais de uma lenda, um lugar onde o povo afirma existir simpáticos fantasmas. Sua origem teria começado no conto do “Escravo Sobrenatural”. Yobanhô nasceu na África e, desde a sua infância, tinha características sobrenaturais: falava com espíritos, tinha sonhos premonitórios, etc. Um certo dia, a tribo dele entrou em conflito com uma tribo rival, seu povo perdeu e seus inimigos venderam os rivais como escravos.

Yobanhô foi parar na Bahia e foi vendido para um descendente de português, um conde casado com uma inglesa, chamada Mary. Como este escravo era muito ágil e rápido, a inglesa o apelidou de Flash. Sete anos se passaram, o conde faleceu e Mary, pretendendo voltar para a Inglaterra, vendeu seus bens e todos os seus escravos. Yobanhô foi vendido para um proprietário de terras do Sul do país, que o levou para trabalhar numa fazenda próxima a Vila de Nossa Senhora da Luz, atual Curitiba.

Este fazendeiro tinha uma filha linda chamada Carolina. Não demorou muito e Yobanhô começou a fazer sucesso com rituais de curas na senzala. Porém, sua fama se espalhou pela região e ele começou a ser procurado por pessoas ricas também.

O dono do escravo, embora aceitasse os rituais, não gostava nada disso. O principal problema é que Carolina se apaixonou pelo escravo sobrenatural e o seu pai, ao saber disto, mandou o pobre negro levar mil chibatadas. Yobanhô levou as chibatadas, mas milagrosamente sobreviveu.

Carolina insistia em seduzir o escravo e, como este se negou, ela mentiu ao seu pai que estava grávida de Yobanhô. Assim, o fazendeiro matou o escravo com vários tiros e enterrou seu corpo na própria fazenda. Muito tempo se passou, a vila Nossa Senhora da Luz virou Curitiba e a fazenda passou a pertencer ao município de Araucária.
A fazenda, vendida para um casal com filho pequeno, viria a se tornar no futuro a danceteria Studio Flash, atormentada pelo fantasma de Yobanhô, o Escravo Sobrenatural.

Noiva da Cachoeira

Esta é a lenda mais antiga do município, identificada pela primeira vez no século XIX. Uma noiva da Lapa iria se casar em Araucária. Abandonada no altar, a noiva tentou voltar para a Lapa à pé. Quando chegou na região de Contenda, a noiva perdeu o véu e morreu logo em seguida. Diz a lenda que seu véu se transformou numa cachoeira, pois o corpo da noiva foi encontrado sem o véu e ao lado de uma cachoeira de que não se tinha registro antes. A cachoeira é real e fica na fronteira entre Araucária e Contenda.

Fantasma do Piano do Colégio Estadual Júlio Szymanski

Antigamente, o colégio Júlio Szymanski tinha um piano. Até que, no meio da madrugada, as pessoas começaram a ouvir alguém tocando música. Numa noite, um guarda viu uma menina afrodescendente tocando. A garota pediu desculpas e sumiu no corredor. Quem conta esta lenda diz que a menina viveu no século XIX, era filha de uma escrava e tocava piano na casa grande em que trabalhava. A menina morreu de meningite no casarão e o piano doado ao colégio teria sido dos patrões dela.

Texto: Laís Almeida, com supervisão de Maurenn Bernardo

Publicado na edição 1270 – 15/07/2021

O Popular do Paraná é o jornal mais antigo de Araucária, na RMC. Circula ininterruptamente desde 21/04/1998. Sua edição impressa vai aos pontos de venda sempre às quintas-feiras.

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