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Enfrentei os alemães e seus canhões – Parte II

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Como disse na semana passada, a história era um pouco longa. Por esta razão, a dividi em duas partes. Avancei com este causo em nossa primeira sentada até o ponto em que mencionei sobre meus dias em alto mar. E é desse ponto que continuo agora.

Recife, onde o navio me deixou. No nordeste. O calor, brutal. Uma semana. Não aguentava. Perguntei, como vou ao chamado Sul? De caminhão, explicaram-me, vá a Capital. De lá a São Paulo, cidade das indústrias. Tudo longe. Na Europa, tudo é perto. Gente morena. Suada. Olhos de gato, lindos, claros, em pele escura. Felizes, também lânguidos. Alguns agitados demais outros vadios, sem ocupação. Perguntavam, curiosos, de onde vinha. Eu explicava. Me acolhiam. As vezes me brindavam, com um líquido transparente, destilado como a vodka, aqui chamada pinga. Mas quente. Não conseguia. Fui, a pé, de caminhão: assim. Três semanas. Vocês não estão interessados nessa aventura. Nem eu. Cheguei à capital. Conheci seus morros. Trabalhei no porto. Mas era o sul, para onde eu devia ir. São Paulo era fácil. Era o caminho do café. Suas indústrias, também eram o destino de muitos imigrantes. Disseram, Curitiba, é onde ficam os poloneses. Soubemos, disseram na rodoviária. Era caro, não tinha dinheiro. Fui a pé mesmo, logo chego. Na estrada, carona de caminhão. Como pagamento, que ajudasse na descarga. Sempre fui trabalhador. Sem problema.

Curitiba era fria. Vazia. Ninguém para me dizer onde ficava meu destino. Descobri, por acaso, num restaurante, que a fazenda experimental ficava perto. Basta pegar um ônibus, disseram. Não sabia que a Polícia de Imigrantes, rondava. Sim. Era proibido ficar sem documentos. Estamos em guerra. Tinha muitos alemães, italianos. São suspeitos. Podem ser aliados dos inimigos. Sem documentos? Pode ser preso. Gostamos dos polacos. Se cuide, vá para o interior.

Desci, numa tal de Araucária. Não conseguia falar o outro nome, Tindiquera, só escrever. Era lá a fazenda experimental. Tinha umas fábricas de palhões, achei melhor me empregar nessas. Não entendia muito de planta. Não pela falta de coragem. Tinha. Não esqueçam o motivo. Procurei os parentes dela. Ninguém ouviu falar. Mas como? Era aqui, nessa fazenda. Tenho certeza. Descrevi ela. Sim. Essa, conheciam. Tinha um noivo. Casamento marcado e tudo. Daqui um ano. Após construir a casa. Como assim? Onde? Fui ao local. Sim, ela estava lá. Achei melhor a igreja. Um domingo. Um padre, em nome do Deus, me absolveria. Ela me reconheceria, se visse. Lembro bem. O susto. As mãos dadas, o sorriso no rosto. A alegria com outro. Fiz meia volta.

Achei uma bodega. Sempre há, em qualquer lugar. Não bebi. Mas fiquei em companhia. Contei minha história. A sabedoria do chão. Disseram-se: não. Que pensa? Enfrentou os alemães. Sobreviveu a um naufrágio. Entre céu e mar, ondas enormes. Conheceu o mundo. O Brasil. Veio a pé. Outras línguas. Minha aventura despertava coragens, que eu não imaginava. Vá. Não desista. Ao menos trabalhe na fazenda. O lugar é bom. Dará emprego. Agricultura, se aprende. Fui, logo no dia seguinte. Emprego, lidar com a terra. Ensinar. Melhoria de sementes. Adubo. Única na região. Estava sem os documentos: depois damos um jeito, me disseram. Vamos trabalhar, essa terra é de trabalhadores.

Nove meses, juntei um bom dinheiro. Fui preso. Me acharam. Disseram: está sem documentos desde quando pegou o ônibus. Polícia da imigração. Levaram-me a Curitiba. Não acreditaram na minha história. É muito. Impossível. Você mente. Eu não conseguiria inventar, disse. Esses brasileiros, pensei: não têm inimigos, mas nos tratam como. Fiquei preso. Um mês. Dois. Cinco meses. Mostrei minhas cicatrizes. Falei, perdi os bagos, os órgãos genitais, uma granada me explodiu. Sobrevivi. Se condoeram. Até que um ofício do secretário de estado, me liberou. Falei com a embaixada polonesa, dizia. Ele está livre. Assim. Sem muitas explicações. Voltei: sem documentos, só com um papel, escrito salvo conduto. Pode trabalhar e ficar em Araucária.

Voltei da prisão. Eu precisava vê-la novamente. Ela casou. Tomei coragem; os bagos, que foram embora na granada, não levaram essa qualidade do caráter junto. Fui. Ela me viu. Corou. Apresentou seu marido. Já estava grávida. Que poderia fazer? Contei-lhe minha história. Desejou-me a felicidade possível. Houve uma despedida. Nunca mais a vi, com meus olhos. Só na alma. Não fico mais aqui, pensei. Que tristeza. Voltei para Polônia. Comunista. Recebi uma pensão, sobrevivente de guerra. Uns trocados, para tocar o resto de vida. Em Gdanski, morri, depois de conhecer um padre, que depois ficou famoso, e um líder de operários. Meu último suspiro: enfrentei os alemães e seus canhões, venci. Aquele beijo, o abraço, suas mãos, a carícia, ainda em meus pensamentos. Os levei comigo, fez valer minha existência.

Por Zimno Kizislöv

A íntegra desta história, você também pode ler em www.opopularpr.com.br!

Publicado na edição 1281 – 30/09/2021