Aconteceu essa semana uma reunião sobre segurança, organizada pelos moradores do Jardim Iguaçu. Recebi o convite de um colega e resolvi participar, pois afinal de contas só 3 dos meus 38 anos não vivi nesse bairro. Quando cheguei não vi a Dona Ilda, nem a Dona Odete, nem a Ana, nem a Cleuza. Percebi então que a reunião não incluía a “COHAB”, o Conjunto Manoel Bandeira, onde eu cresci. Estava em território desconhecido. Reconheci uma professora, o sobrinho de uma vizinha, uma funcionária pública e o pai de um colega do meu filho.

Falariam o secretário de segurança, o diretor geral da secretaria e dois policiais militares.

O secretário aparentemente muito jovem, cheio de boa vontade, mas visivelmente confuso entre ser um cidadão de bem e um guarda durão, falou sobre parcerias que a Guarda Municipal vem fazendo para conseguir trabalhar com dignidade, já que havia sido completamente sucateada na última gestão. Fato verídico e de conhecimento de todos. Questionei sobre a legalidade dessas parcerias e se elas não fariam com que a guarda atendesse primeiro o chamado de um “parceiro”, no caso de acontecer ao mesmo tempo do chamado de um “cidadão comum”. O secretário afirmou que não, porém tendo aparentemente só sua palavra como garantia disso. Perguntei se tinham algum projeto de cidadania, de formação, de prevenção. Vi que seus olhos brilharam e ele iniciou um relato orgulhoso de seu projeto de Guarda Mirim, mas o discurso aparentemente não agradou a plateia que começou com muitos buchichos. Até que um dos presentes interrompeu a “lenga lenga” e disse que não mudaríamos o mundo, nem o Brasil, nem Araucária. Ele queria saber apenas da segurança do BAIRRO DELE. Tive ainda a petulância de inquerir sobre a forma como identificam e abordam um suspeito, pois tinha ouvido falar de alguns casos de abuso, só que aí eu já não era muito bem quista naquele ambiente, que queria apenas respostas para a segurança DAQUELE BAIRRO.

Ouvi ainda uma fala sobre “fumódromo” e “cracolândia”, tentei em vão falar sobre o problema de saúde pública que é o uso de drogas, mas aquele não era um lugar para mim, “defensora de bandido”, pessoa de discurso vazio que não gera solução. O negócio era a “SEGURANÇA DO BAIRRO” e eu não estava entendendo.

Um dos policiais ilustrou que muitas vezes tem que escolher entre atender uma ocorrência de assalto e o chamado de uma mulher que apanha há dez anos do marido. Senti que quase todos ali não titubeariam em decidir por perseguir o ladrão. O ápice foi quando o secretário afirmou que não deveríamos usar nossos celulares e câmeras para filmar guardas e policiais praticando atos indevidos, mas sim filmar os “BANDIDOS”, os “BANDIDOS”. Nesse momento eu já fazia apenas perguntas internas: quando guardas e policias agem fora da lei, não são bandidos também?

Daí desisti e fui embora, pensando que tem alguma coisa muito errada comigo. Desisti dessa coisa de igualdade, de justiça, de tudo.

Hoje de manhã estava lá, eu, tentando convencer o estagiário que não pode resolver tudo na porrada.

Eu desisto de mim.

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