A violência obstétrica, apesar de ser pouco conhecida e comentada, é algo que acontece com frequência. Na maioria das vezes, as mulheres vítimas desse tipo de violência não fazem ideia de que são vítimas. Sobre o assunto, a médica ginecologista e obstetra Leila Wessler ressalta que é importante sabermos diferenciar a violência de uma intervenção médica, visto que o parto é um evento fisiológico e pode ter complicações e emergências, que necessitam de uma ação rápida.

Instagram

Acompanhe nosso perfil

Seguir @opopularpr

“A violência obstétrica não tem uma definição bem clara, mas ela é um termo que a gente utiliza para descrever situações de desrespeito, abuso, negligência, algum tipo de discriminação ou quando é realizada alguma intervenção durante o parto, a gestação, ou pós-parto, ou até em situação de abortamento, em que não houve uma adequada informação da paciente ou não teve o consentimento dela”, informa a doutora.

De acordo com ela, o que pode ser analisado ao considerar um caso de violência obstétrica é se realmente tinha uma indicação, se a conduta da equipe foi proporcional à situação clínica da paciente, se ela foi adequadamente informada e se participou das decisões.

A obstetra também menciona que a violência obstétrica pode acontecer de diversas formas, podendo estar relacionada com a comunicação entre a equipe e a paciente, como comentários com teor de julgamento, ameaça, humilhação e depreciativos; exposição à mulher devido à falta de privacidade; quando se desconsidera as queixas da mãe; na realização de procedimentos sem explicar ou sem ter o consentimento da paciente.

Outros exemplos citados são deixar a gestante restrita na cama, sem livre movimentação; sem alimentação; e não permitir a presença de um acompanhante. “Por outro lado, volto a ressaltar que é preciso diferenciar essas situações de intervenções necessárias durante uma complicação materno-fetal. Então, às vezes nem toda a restrição ou intervenção durante um parto significa violência. Pode ser uma forma necessária de agir rápido para conseguir preservar a segurança da mãe e do bebê”, enfatiza.

Dra Leila diz que costuma citar a seguinte frase: ‘Nem parto normal a todo custo, nem a cesariana por qualquer coisa’ ao se referir à gestação. Com base nisso, ela explica que a cesariana pode salvar vidas, assim como o parto normal pode evoluir bem e eventualmente precisar de uma episiotomia, que não pode ser classificada como violência obstétrica. Ela também descreve exemplos de situações que representam indicações médicas, como o uso de fórceps e administração de ocitocina. “Nem toda intervenção é uma violência obstétrica, a maneira de fazê-la é que pode levar a uma violência obstétrica”, destaca.

Fora de uso

A assistência obstétrica mudou muito nas últimas décadas, e atualmente muitas práticas estão caindo em desuso e são completamente inadequadas, como a episiotomia de rotina, a tricotomia, lavagem intestinal, manter a mulher presa no leito e a restrição de alimentação ou de líquidos. Também entre essas práticas está a chamada Manobra de Kristeller, onde é aplicada uma pressão no fundo do útero, ou seja, na parte superior da barriga, para empurrar o bebê.

“A mulher tem direito a uma assistência segura, respeitosa e digna; tem direito a receber todas as informações de forma que seja compreensível para ela tudo o que está acontecendo. É importante ter a privacidade e a autonomia respeitadas. Assim como durante o trabalho de parto, no próprio parto e pós-parto, ela tem direito a um acompanhante. Isso tem que ser respeitado, ela precisa ter alguém junto com ela”, orienta.

De maneira geral, conforme a obstetra, qualquer paciente adulto e capaz tem o direito de participar de qualquer decisão sobre o seu corpo e recusar o procedimento depois de receber as informações, pesando o risco-benefício. Essa ação é chamada de consentimento informado.

No entanto, é essencial deixar claro que existem situações excepcionais, principalmente em emergências, quando a gestante acaba ficando inconsciente, ou temporariamente incapaz de manifestar vontade, ou tem risco imediato à vida da mãe ou do bebê, nesses casos, a equipe pode realizar intervenções urgentes, dentro de um limite ético e legal aplicável.

Referente ao acompanhante, Dra Leila enfatiza que a paciente em trabalho de parto tem direito a sua presença de forma contínua, desde a entrada até a alta do hospital. “O acompanhante, para mim, é essencial e a principal função dele é a segurança emocional. Muitas vezes, é ele que vai comunicar o desejo da mulher para a equipe, por ela estar num momento emocional muito intenso, e vai auxiliá-la a lembrar das dúvidas ou do que ela preferia quando não estava nesse momento do trabalho de parto ou durante a cesariana. O acompanhante vai ser a pessoa que vai manter a calma, que vai auxiliar na comunicação e permitir que a equipe realize rapidamente o que for necessário”, observa.

A Dra Leila relembra o caso de uma paciente que levou o pai (avô do bebê) para ser seu acompanhante, porque ele era a pessoa que mais transmitia segurança a ela. A médica destaca o quanto é importante que a paciente escolha quem será o acompanhante, porque nem sempre a pessoa mais óbvia será realmente o porto seguro da gestante.

No quesito de identificar uma possível violência obstétrica, a doutora descreve que nem sempre é possível fazer essa avaliação apenas pelo parto ter sido diferente do que a gestante tinha planejado. “Acho que é interessante que, quando essa mulher, de alguma forma, se sentiu violentada, um jeito bom é pedir o prontuário e conversar com o profissional, para entender tecnicamente o que aconteceu, reconstruir a evolução do trabalho de parto para que possa entender porque que determinada conduta foi tomada”.

De acordo com ela, o primeiro passo é registrar tudo enquanto ainda lembra e marcar em ordem cronológica. Outra etapa é solicitar uma cópia integral do prontuário, onde constarão todos os registros médicos e exames. Após a paciente identificar que sofreu uma violência obstétrica, é possível procurar a ouvidoria do hospital ou a direção da instituição onde o parto aconteceu, para registrar a denúncia formalmente.

“Eu acho importante tecnicamente falar que, antes de entrar com qualquer processo, é interessante que essa família faça uma avaliação técnica, independente do prontuário. Contratar um assistente técnico para ser feita uma avaliação do prontuário, para ver se o que aconteceu realmente foi uma intervenção ou se realmente foi uma violência”, orienta.

Para finalizar, a doutora Leila Wessler orienta que a gestante busque informação de qualidade durante a gravidez, sempre pedindo que o médico responsável durante o pré-natal, converse sobre o parto antes de acontecer. “Vocês têm que conhecer os direitos de vocês, têm que escolher com cuidado o acompanhante, têm que conversar sobre preferências. É legal fazer o plano de parto para vocês, conseguir organizar as expectativas, ajudar na comunicação com a equipe. E também é importante compreender que esse plano de parto vai expressar as preferências dessa mulher de forma previamente discutida, e também no momento da internação, pode ser adaptado conforme a condição clínica da mulher e do bebê. Existe a parte boa e a parte ruim tanto do parto normal quanto da cesárea, e essa mulher precisa conhecer a parte boa e a parte ruim para que possa atravessar o momento do parto de uma maneira consciente”.

Edição n.º 1951

Threads

O Popular também está no Threads

Seguir @opopularpr