Deixar de lado o salto alto e a maquiagem para vestir um uniforme pesado, botas de bico de aço e outros equipamentos de proteção individual, não é desafio a ser encarado por muitas mulheres. É tarefa apenas para as mais guerreiras, corajosas e firmes. Para as que não se importam em deixar a vaidade de lado, pelo menos enquanto estão nos seus postos de trabalho. É por elas que o Dia Internacional da Mulher (8 de março), que marca a luta por direitos iguais entre homens e mulheres, não pode passar em branco. A data enaltece as trabalhadoras de hoje, que conquistaram seus espaços. Durante muitos anos elas foram subjugadas na sociedade, educadas para o casamento, para servir ao marido, cuidar dos filhos e serem donas do lar. Mas conseguiram mudar o pensamento da sociedade e assumiram profissões consideradas masculinas. São elas, somente elas, que hoje mostram que lugar de mulher é aonde ela quiser.

Para homenagear essas lutadoras, o Jornal O Popular conversou com oito trabalhadoras, que enfrentaram preconceitos e foram vítimas de comentários machistas, para conquistar o respeito nas profissões difíceis, e tidas como masculinas, que hoje ocupam. Acompanhe os depoimentos.

Texto: Maurenn Bernardo

“Escolhi a solda primeiro pelo salário, depois com o tempo virou paixão mesmo. Gosto de soldar, unir, fundir matérias”.

Janaína dos Santos
Fernandes

Quem vê a Janaína dos Santos Fernandes no dia a dia, toda vaidosa, não consegue imaginar que no trabalho ela vira um verdadeiro peão de obra, situação que ela mesma faz questão de levar em tom de brincadeira. Janaína é moradora do bairro Costeira, tem 38 anos, três filhos, e o mais velho, de 20 anos, já se prepara para ser soldador, igual a mãe. Há 12 anos como soldadora, atualmente ela trabalha na empresa Tequaly. “Escolhi a solda primeiro pelo salário, depois com o tempo virou paixão mesmo. Gosto de soldar, unir, fundir matérias”, diz.

Também entre as vítimas de preconceito, Janaína lembra de uma situação envolvendo um encarregado em Maceió, que demorou uma semana pra lhe passar serviço na frente de trabalho, achando que ela não daria conta do recado. “Questionei muito e pra me testar, ele me colocou em um serviço ainda mais difícil. Só depois do trabalho concluído, em discussão com a equipe, pediu desculpas por me julgar e ter preconceito por eu ser mulher”.

Soldadora ainda não é uma profissão onde as mulheres ocupam o mesmo espaço que os homens. Janaína conta que muitas empresas não oferecem estrutura para mulheres, como banheiros, vestiários e isso impossibilita a contratação. “Quando viajamos a trabalho temos dificuldades com alojamentos, porque a maioria é feita só para homens. Como somos minoria, o custo para a empresa é outro e assim acabamos ficando de fora ou tendo gastos do nosso próprio salário para conseguir ficar com a vaga. O preconceito ainda existe, velado algumas vezes, mas ele está aí”, lamenta.

Conforme a soldadora, a mulher tem que brigar pelo seu espaço para receber oportunidades de quem realmente acredita que ela tem capacidade. “Meu orgulho como soldadora é diário. Me sinto capaz de fazer igual ou melhor que muitos homens, me orgulho em poder ajudar, incentivar outras pessoas também, da mesma forma que fui ajudada no início. Com conhecimento adquirido, hoje tenho oportunidade até mesmo de ajudar meu próprio filho a ingressar na área de montagem e solda. Sou respeitada pelo meu trabalho, tenho o reconhecimento dos meus colegas. Nós mulheres podemos sim exercer a profissão que sonhamos. Portas podem se fechar, mas outras estarão abertas”, incentivou.

“O preconceito existe e ainda ouço piadinhas maldosas, mas sempre ergo a cabeça e faço o meu melhor, mantendo o foco em ser uma ótima profissional”.

Rosemery Mayer

A soldadora Rosemery F. Mayer, 45 anos, mora no bairro Thomaz Coelho, e está na profissão desde o ano de 2004. A escolha pela função foi uma resposta divina, segundo se orgulha em contar. “Eu não conhecia ninguém no ramo da solda, mas um dia pedi a Deus que me desse uma profissão que eu gostasse e quando vi uma reportagem a respeito, senti que era a resposta. A partir de então, nunca mais fiquei desempregada. Meu primeiro emprego na área foi na Repar, hoje sou encarregada de solda na empresa Irmãos Passaúra”, relata. Casada, com duas filhas e dois enteados, Mery nunca teve problemas com a jornada dupla, sempre conciliou bem o trabalho com a vida de mãe e dona de casa. Ama tanto o que faz, que ensinou à filha, o mesmo ofício. “Me orgulho disso, porque minha filha também está encaminhada em uma boa profissão”.

Como encarregada, a soldadora precisa dar ordens para seus subordinados, a grande maioria homens, função que ela tira de letra, pois às custas de muita luta para provar que tinha tanta competência quanto, conquistou o respeito de todos. “É claro que o preconceito existe e ainda ouço piadinhas maldosas, mas sempre ergo a cabeça e faço o meu melhor, mantendo o foco em ser uma ótima profissional. No começo da carreira, quando eu me candidatava para uma vaga, os encarregados não me colocavam na frente de trabalho, ao contrário dos homens, que chegam e ninguém questiona se sabe fazer ou não, mandam logo para frente, Infelizmente ainda tem empresas que não hesitam em dizer que tem vagas para soldadores, mas apenas homens. Ainda assim, amo o que faço e fico orgulhosa de mim mesma quando tem algum tipo de ensaio de testes no meu trabalho e dá tudo certo. Fico feliz demais, principalmente quando a chefia reconhece”.

“Meus pais são soldadores. Minha mãe me incentivou a ser também. Me orgulho deles”.

Eloiza Mayer Zanocini

Eloiza Mayer Zanocini ainda é muito jovem, tem apenas 23 anos, mas sua determinação faz inveja a soldadoras bem mais experientes. A escolha pela profissão sofreu forte influência da mãe Rosemery. O pai também é soldador. Ela iniciou na função há apenas três anos e atualmente está trabalhando para a TEC.Doc, na área da Repar. Eloiza mora no Centro, tem uma filha, mas também convive bem com o trabalho e o papel de mãe. Também é bem resolvida quando o assunto é preconceito por parte de colegas de trabalho do sexo masculino. “Alguns têm um certo receio, por sermos mais delicadas, por estarmos em um ambiente que teoricamente deveria ser exclusivamente masculino, um setor mais bruto. Isso demonstra que hoje em dia o preconceito contra mulheres em profissões comumente vistas como masculinas ainda existe, mas felizmente diminuiu muito. Quando minha mãe iniciou na profissão, em 2004, era pior, porque o número de mulheres na área era bem menor”, disse a jovem soldadora.

Eloiza conta que se sente realizada quando as pessoas lhe parabenizam por estar atuando nesta área, quando alguém vê a solda e elogia por ser tão difícil encontrar uma mulher nesse setor. “Me tornei soldadora por causa dos meus pais, tenho muito orgulho deles. Hoje em dia estou seguindo mais a parte de qualidade de solda, quero crescer cada dia mais e conquistar outros setores dentro dessa área, ganhando nosso espaço como mulher”, finaliza.

“Podemos lavar, passar, cozinhar e limpar. Podemos fazer isso e muito mais, é só termos a chance de mostrar que somos capazes”.

Marici do R. Padilha Leão

A moradora do Conjunto Manuel Bandeira, Marici do R. Padilha Leão, 51 anos, é casada, tem quatro filhos e quatro netos. Ela é porteira há seis anos e trabalha em um edifício em Curitiba. Ela é mais uma que foi escolhida pela profissão. “Eu era zeladora e um dia uma colega de trabalho faltou. Por conhecer o regimento interno, os condôminos, o edifício todo, me coloquei à disposição para ajudar no que fosse possível. E a partir daquele dia, virei porteira”, conta. Na profissão da Marici já existem muitas mulheres, mas os homens ainda são sempre mais cotados para o cargo. “Infelizmente ainda há preconceito nessa área, porque acham que nós mulheres não podemos impor ordem e respeito. Podemos lavar, passar, cozinhar e limpar. Podemos fazer isso e muito mais, é só termos a chance de mostrar que somos capazes. Nós mulheres temos a capacidade e a destreza de conciliar o trabalho com o serviço doméstico, algo que a maioria dos homens não conseguem”, compara.

A porteira já mostrou que tem pulso firme. “Em algumas situações preciso ser bem rígida, caso contrário, se alguma coisa der errado, a responsabilidade recairá sobre mim. Preciso cobrar respeito dos moradores com relação às regras”, disse Marici. Ela relembra um momento importante que viveu como porteira. Pelas câmeras de segurança da portaria, viu umas crianças fazendo algazarra no playground e foi verificar. Percebeu uma menina sentada na janela do 3º andar de um dos apartamentos, de costas para o pátio. “Pedi que saísse dali. A mãe havia saído, então liguei e contei sobre o ocorrido. Ela deu uma bronca na filha, que ficou uns dias sem me cumprimentar. Sinto que cumpri meu papel, porque talvez eu tenha evitado uma tragédia. Isso me deixou grata e orgulhosa”.

“Não costumo sofrer preconceito, pelo contrário, recebo
elogios por motivo de ser mulher e encarar uma profissão dura. Não é qualquer uma que abraça esse trabalho”.

Lidineis Lemes

Lidineis Lemos, 53 anos, é uma carpinteira de mão cheia. Divorciada e mãe de dois filhos, ele rala muito na profissão, e não perde espaço para nenhum homem. Se precisar fazer um pilar, ela faz. Se precisar fazer uma viga, ela faz. Não tem nada dentro da função que ela não seja capaz de executar. “Pego o projeto no papel, faço tudo que for preciso, começando do corte da madeira, até a execução do serviço”, relata. A moradora do bairro Costeira escolheu a carpintaria há 10 anos, quando estava desempregada. Atualmente trabalha na empresa Cassol Pré-Fabricados e se diz apaixonada pelo que faz.

Lidineis está sempre de bem com a vida, não se deixa abater com as dificuldades. “Não costumo sofrer preconceito, pelo contrário, recebo elogios por motivo de ser mulher e encarar uma profissão dura. Não é qualquer uma que abraça esse trabalho”. Para ela, a mulher sempre será considerada pela sociedade como o sexo frágil, e sem condições de ocupar cargos que ainda são vistos como masculinos. “Mas ao contrário do que a sociedade dita, a mulher vem ocupando cada vez mais o seu espaço, mostrando que é capaz e que pode exercer qualquer profissão, de igual pra igual. A mulher pode fazer o que ela quiser, basta acreditar em si mesma”, aconselha.

“Muitas pessoas que frequentam o posto às vezes fazem algum tipo de assédio, a mulher nunca está tranquila em lugar nenhum”.

Sandra Mara Correa Pereira

Sandra Mara Correa Pereira, 48 anos, é casada e mãe de um filho. A moradora do bairro Iguaçu é frentista há 15 anos e atualmente trabalha no Posto Dibrape. Ser frentista, segundo ela, foi a primeira opção que lhe apareceu na época, quando procurava emprego, mas se apegou ao ofício e não largou mais. Mesmo atuando na linha de frente de um posto de combustíveis, convivendo com todos os tipos de clientes, desde os mais simpáticos até os mais carrancudos, Sandra cumpre seu papel com competência e se orgulha, pois já foi escolhida a funcionária do mês por cinco meses seguidos.

“Sempre fui muito bem respeitada por todos os meus colegas de trabalho, e procuro fazer meu serviço da melhor maneira possível. De vez em quando enfrento algum assédio por parte de clientes, mas a experiência de tantos anos como frentista, me ajuda a lidar muito bem com isso”, comenta. Sandra é uma guerreira e como tal, sabe harmonizar as tarefas de trabalhar fora e cuidar da família e da casa. “A mulher sempre se vira nos 30, consegue fazer várias coisas ao mesmo tempo, mesmo quando a rotina lhe exige muito. Infelizmente ainda existem muitos homens machistas e preconceituosos quando veem uma mulher em uma profissão que a sociedade dita como masculina. Mas isso não me afeta, gosto bastante do meu trabalho, e ficaria ainda mais feliz se as pessoas tivessem mais empatia e menos preconceito com as mulheres. Desejo forças para todas essas guerreiras que trabalham em cargos pesados, para que tenham forças de encarar uma sociedade hipócrita. Ergam a cabeça e lutem por seus ideais. Lugar de mulher, é aonde ela quiser”, aconselha a frentista.

“Eu e uma colega salvamos a vida de um rapaz que se afogava. Várias pessoas ali olhando, e no momento que a gente saiu da água, um homem disse: Puxa, elas salvaram a vida do menino! Aquilo foi gratificante.”

Lilian Vilas Boas Panzetti

Ser uma bombeira militar é um eterno desafio, que nem todas as mulheres se dispõem a encarar. Desafio que para Lilian Vilas Boas Panzetti, 37 anos, que atua no Corpo de Bombeiros de Araucária, nunca foi uma barreira. Há pouco mais de sete anos na profissão, ela driblou preconceitos para mostrar que uma mulher tem plenas condições de desenvolver sua missão dentro da corporação, tanto quanto um homem. Casada e mãe de dois filhos, costuma dizer que a profissão a escolheu. “Não sonhava em ser bombeira, mesmo porque, haviam poucas mulheres nessa área. Trabalhei anos como comissária de bordo, e adorava os treinamentos de salvamento, primeiros socorros. Ali dava para sentir um pouco do que é ser um bombeiro em combate. Um dia um amigo me falou do concurso do CB e sugeriu que eu fizesse, já que sempre fui atleta e tinha perfil. Aquilo acendeu como uma faísca. Pesquisei, fiz o concurso e passei. Desde a prova e o início no trabalho foi tudo muito rápido. A paixão pela profissão também veio rápido”, relembra.

Lilian lembra que as mulheres sofrem preconceito em qualquer lugar, independentemente de estar em um quartel ou não. Já aconteceu de me verem fardada e virem perguntar se eu trabalhava no caminhão de incêndio, se eu fazia salvamento, se precisasse entrar na água e tirar uma pessoa que estava se afogando eu conseguiria. Como se o fato de eu ser mulher fosse impedimento”, lamenta.

Quando lhe perguntam se dá conta da vida pessoal, mesmo sendo bombeira, Lilian responde com orgulho. “Minha jornada é quádrupla. Sou bombeira, sou atleta, ajudo meu marido na empresa dele e ainda cuido dos meus dois filhos e da casa. Nós mulheres, com todas as nossas dificuldades, estamos tomando um espaço dentro dessas profissões e as pessoas estão tendo que aceitar. Minha missão é ajudar, salvar vidas, e isso está acima de qualquer coisa. Um dia eu e uma colega salvamos a vida de um rapaz que se afogava. Várias pessoas ali olhando, e no momento que a gente saiu da água, um homem disse: Puxa, elas salvaram a vida do menino! Aquilo foi gratificante. Esse reconhecimento é o que importa”, comentou Lilian.

“Quando criança sofri um acidente doméstico gravíssimo, que me deixou entre a vida e a morte. Nasci de novo, pra ser uma motorista”

Alexandra Melechenko

A motorista de ônibus do Triar, Alexandra Melechenko, 28 anos, tem um imenso orgulho do que faz. Conhecida no trabalho como Melechenko, em homenagem ao pai já falecido, ela disse que desde criança sonhava em ser motorista e há sete anos está nessa profissão. “Isso nasceu comigo e depois me inspirei em um tio que era motorista e me contava como era. Graças a Deus consegui essa conquista na minha vida”, comenta. Alexandra tem um filho de 10 anos, e como toda mulher guerreira que exerce jornada dupla, dá conta do recado.

Apaixonada pelo que faz, a motorista não liga para o preconceito por parte de alguns passageiros. “Meus colegas me respeitam, e isso pra mim já basta. Quando algum(a) passageiro (a) vem de gracinha por ser uma mulher no volante, eu desconsidero. Infelizmente isso acontece porque ainda vivemos em uma sociedade preconceituosa. O que importa é que meu meu dia a dia convivo com situações que me fazem crescer profissionalmente e gostar ainda mais do que eu faço. Quando criança sofri um acidente doméstico gravíssimo, que me deixou entre a vida e a morte. Nasci de novo, pra ser uma motorista”, diz Alexandra.

A moradora do bairro Boqueirão conta um motivo de grande emoção e orgulho, que viveu na profissão. “Um dia uma criancinha entrou com sua mãe no ônibus, olhou para mim e disse: “mãe, olha que linda essa mulher, quando crescer quero ser igual a ela. Depois me entregou uma flor que tinha na mão. Eu quase chorei. Também já recebi tanto carinho de senhoras e senhores e de outras crianças, é mesmo de se emocionar”, comemorou. Alexandra disse que é um milagre ela ainda estar viva, por isso, quando tem dias difíceis, sempre fala a si mesma que não está aqui por acaso. “Todo dia encontro forças para lutar e dar uma vida melhor para o meu filho”.

Publicado na edição 1251 – 04/03/2021

CONTEÚDO RECOMENDADO

VEJA TAMBÉM

Compartilhe

Share on twitter
Share on facebook
Share on telegram
Share on whatsapp