Nos dos outros é refresco!

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Lembro-me como se fosse hoje. A necessidade de informar que me acompanha fez com que, certa vez, eu publicasse uma nota em O Popular relatando que um motorista da Prefeitura receberia uma função gratificada e horas extras estranhas simplesmente por dirigir um carro oficial que carregava todos os dias o então secretário de Saúde do município da casa dele, em Curitiba, até Araucária. Isso teria acontecido entre 2009 e 2012.

Tão logo a nota foi veiculada, recebi cumprimentos de outros motoristas da Secretaria de Saúde, alguns deles, inclusive, lotados na Central de Ambulâncias. Diziam-me eles: “é isso aí, tem que publicar mesmo, se não houver nada de errado, ele não tem porque se preocupar”. Um deles, aliás, o que me deu a dica sobre o recebimento da função gratificada, chegou a me chamar de “parceiro”, a dizer que o que eu fazia ajudava a colocar as “coisas em pratos limpos” e assim por diante.

A todos, eu só fazia cara de Mona Lisa, sorria de canto de boca, argumentava que só havia feito meu trabalho e me colocava à disposição, já que acreditava – e acredito – que essas publicações fazem bem à administração pública, trazendo luz aquelas sacanagens que sempre foram feitas por estas bandas e que, gostem os beneficiários ou não, aos poucos estão acabando.

Cito a passagem acima porque, nos últimos dias, ouvi que alguns motoristas, entre os quais o que me chamou de parceiro naquela ocasião, estavam dizendo por aí que eu era um tremendo de um sacana por conta da série de matérias que tenho escrito a respeito da Central de Ambulâncias e das “traquinagens” que rolavam por lá, resultando no pagamento de horas extras desnecessárias e assim por diante.

Esse episódio reafirmou minha convicção com relação à capacidade do ser humano de ser hipócrita. Ora, quer dizer que quando o autor da sacanagem é outro, ela precisa ser exposta e o instrumento desta exposição é gente da melhor qualidade, mas quando o sacana sou eu, contar isso para os outros é um absurdo.

As pessoas precisam se apropriar mais do que dizem, precisam conhecer melhor o meio em que vivem. Olhar mais em seu entorno. Neste caso das ambulâncias mesmo, ouvi de alguns motoristas que era um absurdo divulgarem o quanto eles ganhavam, como se isso fosse segredo para alguém. Como se essa não fosse uma informação pública, justamente porque o cargo que eles ocupam é público. Cada vez mais não há espaço para segredos dentro do Estado. A transparência é a regra. E aquele que escolhe o serviço público como profissão precisa entender isso.

E essa necessidade de transparência daquilo que é mantido pelo dinheiro da coletividade é cada vez mais cobrada e questionada pela população justamente porque o Estado não vem cumprindo seu papel, muitas vezes sob a alegação de que faltam recursos para atender todas as demandas da sociedade. Ou vocês acham que a indignação do cidadão com o valor dos salários pagos aos motoristas de ambulância é somente inveja? Claro que não! Ele se indigna porque – talvez – o dinheiro da hora extra paga ali é justamente aquele que poderia ser utilizado na compra do remédio que falta na farmácia do postinho e assim por diante.

Obviamente, as horas extras pagas aos motoristas de ambulâncias não são, sozinhas, as responsáveis por faltar dinheiro para compra do medicamento. Elas, diga-se de passagem, não são nem a ponta da unha do problema. Há outros! Como, por exemplo, o excesso de cargos em comissão dos vereadores, entre os quais estão aqueles que tiveram a pachorra de defender a manutenção do status quo dentro da Central. Do mesmo modo, sangram os cofres públicos o absurdo número de CCs acomodados dentro Prefeitura, o excesso de secretarias municipais, o câncer do dia sem vínculo onde parte do professorado é paga para ficar em casa, entre outros tumores que ajudam essa cidade a não avançar na velocidade em que poderia.

Comentários são bem vindos. Até uma próxima!