Professor Rafael Jesus: OS AUDACIOSOS VARÕES DA TERRA

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A partir de 1694 uma notícia há muito esperada começou a circular pela América Portuguesa (hoje Brasil), bandeirantes, ou melhor dizendo paulistas, encontraram ouro às margens dos rios na região que acabou se tornando a Capitania de Minas Gerais (1720), nome dado porque as minas eram muitas e de imensa variedade de metais.

A mineração deu novo ânimo à economia da colônia. Muita gente vitimada pela auri sacra fames, ou seja, pela fome do ouro, abandonou tudo e foi tentar a sorte nas Geraes, muitos vieram de Portugal e a população da colônia em pouco mais de um século multiplicou-se por 11.

Como todos estavam ocupadíssimos com a mineração, muitas vezes faltava comida, sendo que nessas circunstâncias mineradores cheios de ouro eram obrigados a comer vermes, formigas e sapos. A carne na região era vendida por preços exorbitantes, chegando a ser 60 vezes mais cara do que no resto da colônia.

Enquanto isso, aqui nos Campos de Curitiba e no que é hoje o Rio Grande do Sul havia criações de gado vacum. No caso da futura Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul o gado criava-se selvagem na região da Vacaria do Mar. Moradores de Montevidéu e Buenos Aires caçavam esses animais para retirar o couro que era exportado de navios para a Europa, deixando a carne apodrecendo no campo.

Outra coisa que você precisa saber é que naquele tempo não existiam veículos automotores, portanto tudo era transportado por pessoas, quase sempre escravizadas, ou por cavalos, bois e mulas. A mula é um animal híbrido, resultado do cruzamento entre uma égua e um jumento. Os argentinos criavam mulas e as exportavam para a Bolívia e por meio de contrabando para o Brasil, como pagamento recebiam ouro, prata e até mesmo pessoas escravizadas.

E é aqui que nós entramos nessa história. O primeiro gado que foi levado para São Paulo para dali ser levado para abastecer a região das minas saiu dos Campos de Curitiba, da nossa região. Portanto estávamos ajudando a saciar os famintos mineradores.

Entre 1728 e 1733 foram abertos caminhos ligando o Rio Grande do Sul, os Campos de Curitiba e a feira de Sorocaba, em São Paulo. Naquele tempo os Campos de Curitiba tornaram-se região de Invernada, ou seja, de engorda dos bois e mulas antes de seguirem viagem para a feira de Sorocaba, onde eram vendidos e depois revendidos à região das minas.

Surge então um dos sujeitos mais importantes e audaciosos da história do Brasil, o Tropeiro. O tropeirismo era uma atividade econômica que consistia em conduzir tropas de gado vacum (bois e vacas), cavalar (cavalos e éguas) e muar (mulas e machos), entre outras mercadorias, das regiões produtoras às regiões consumidoras.

O Caminho mais famoso percorrido pelos tropeiros era a Estrada da Mata, que ligava os campos de Viamão no Rio Grande do Sul à feira de Sorocaba em São Paulo, que também é chamada de Estrada Viamão Sorocaba ou simplesmente Caminho das Tropas.

Também havia outros itinerários percorridos pelos tropeiros como no transporte de mercadorias cruzando a serra do mar rumo aos portos de Paranaguá e Antonina. Era uma travessia perigosa, que vez ou outra fazia vítimas fatais.

Um efeito significativo sobre a vida dos moradores de Tindiquera foi a valorização da Terra e a criação de novas ocupações ligadas ao tropeirismo, como foi bem observado:

“A comunicação entre Lapa e Registro se realizava através de canoas pelo Rio Iguaçu. Motivado por esse fato, surgiu na região de Tindiquera um pequeno porto de canoas conhecido como Passos das Laranjeiras, situado rio acima, à margem direita. Foi a partir desse local que se originou o aglomerado de pessoas e atividades que formariam a Vila de Araucária.

Nas imediações do porto, começaram a residir aqueles que trabalhavam, rio abaixo, no embarque/desembarque de canoas ou na travessia de tropas rumo à Palmeira. Também foram atraídas para o Passo das Laranjeiras outras famílias residentes em Tindiquera, que ficava à meia légua de distância do pequeno porto (ARAUCÁRIA, 2010, v. 1, p. 20-21).”

Ao longo da Estrada da Mata havia pedágios, que eram estrategicamente instalados nas passagens dos rios conhecidas como vaus, ou seja, locais de passagem dos rios que eram rasas e com águas relativamente calmas para a travessia dos animais. Acontece que os pontos possíveis de se vaudear eram raros e as autoridades sabiam disso, por isso os tropeiros eram obrigados a pagar um imposto por cada animal que passava por aquelas vaus dos rios que eram pedagiadas. A cobrança de pedágio chegou a ser uma das principais fontes de arrecadação da Capitania de São Paulo.

Grosso modo podemos dizer que o ciclo do troperismo foi de 1731 até 1897, sendo que a partir de 1870 o mesmo entra em declínio por conta das construções de ferrovias, o trem substituirá a mula. Contudo há de se considerar que os tropeiros atuaram em nossa região até a década de 1950, resistindo ao tempo, resistindo ao esquecimento.

Edição n.º 1394

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