Uma das cenas mais marcantes na minha vida aconteceu no Monte Tabor, onde tive o prazer e a alegria de celebrar uma missa com um grupo de peregrinos. Ali voltei no tempo, revivendo o grande momento vivido por Jesus, quando se transfigura e revela ao mundo quem Ele é. No Monte Tabor Jesus está em contato íntimo com o Pai e, lhe aparecem Moisés e Elias, com os quais ele conversa. Os discípulos que foram com ele, dormem, mas, de repente acordam e ficam fascinados com aquela cena. E Pedro, num ímpeto de euforia, pede para que eles permaneçam por lá, fazendo três tendas: uma para Moisés, outra para Elias e outra para Jesus. E, imediatamente, ambos desaparecem e Jesus fica sozinho e pede aos discípulos que não falem nada para ninguém, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos. Em seguida, eles descem a montanha e ficam se perguntando o que significaria ‘ressuscitar dos mortos’.

Na montanha, Jesus se transfigura enquanto reza e antecipa a glória. Moisés significa a lei e Elias, os profetas. Quando eles desaparecem, claramente entendemos que a partir de agora, é ele que deve ser seguido e ouvido. É o Filho muito amado que deve ser escutado. A oração deixou Jesus com o rosto transfigurado, mudado, e é este esplendor o sinal da glória que envolve a pessoa que está unida com Deus. Todo encontro autêntico com Deus deixa marcas visíveis no rosto do homem. A luz no rosto de Jesus indica que, durante a oração ele compreendeu o projeto do Pai e o assumiu: entendeu que o seu sacrifício não teria se concluído numa derrota, mas na glória da ressurreição.

A transfiguração de Jesus é uma verdadeira chave de leitura para a nossa vida cristã. Nós também, todos os domingos subimos a montanha, quando vamos para a Igreja participar da santa missa ou de outro culto de fé. Esse encontro com Deus, quando vivido profundamente, nos transforma, nos faz entrar em contato com o Pai e muda até o nosso semblante, o nosso aspecto. Este tempo na montanha é muito importante e necessário. No dia a dia, todas as vezes em que nos afastamos das coisas deste mundo e entramos em contato com Deus, existe dentro de nós uma verdadeira transformação. Necessitamos, todos os dias, subir a montanha e estar com Deus, para renovar as nossas forças, as nossas energias, e continuarmos firmes na labuta diária.

No entanto, nós não permanecemos o tempo todo na montanha, mas, por alguns momentos ou até horas, em determinadas circunstâncias. Depois de um tempo, devemos descer, e, continuar a nossa trajetória neste mundo. A realidade vivida na montanha é confortante, nos preenche, para descer e enfrentar os desafios e as cruzes no nosso dia a dia. Descer é sempre um momento de coragem, a fim de encarar aquilo que nos espera na dura realidade cotidiana. Tantos problemas, dificuldades, exigências, mas, cheios do amor de Deus e da sua presença, nos sentimos mais fortes e animados.

Esta dinâmica da vida é essencial para estarmos sempre renovados e revigorados em nossa fé. Subir a montanha faz-se necessário, do contrário, poderemos nos esvaziar e desistir da luta. Cheios do amor de Deus, depois de uma celebração bem participada, ou de momentos fortes de oração, nos sentimos fortalecidos e animados. Sozinhos somos frágeis e limitados, mas, o amor e a presença de Deus, nos fortalecem na caminhada. Descemos com o tanque cheio, porque plenos do amor e da presença do Senhor. Assim é a dinâmica da nossa vida: subir a montanha para se restabelecer com o amor e a presença de Deus; descer depois, para carregar com coragem as cruzes do nosso cotidiano.

Publicado na edição 1302 – 10/03/2022

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