Vando Fortuna: O candomblé de Angola em Araucária — a persistência de Jaguaracy e de Tia Tereza
Coluna Riqueza da Alma conta a trajetória de Jaguaracy Santana dos Santos e de sua mãe, Tia Tereza, na manutenção do Candomblé de Angola em Araucária.
“Filha minha, não conhece o medo. Filha minha é desbravadora e vencedora. Caiu? Chora, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.”
Foi assim que Tia Tereza ensinou a filha a caminhar pela vida.
Talvez uma mãe possa deixar casa, dinheiro ou joias. Tia Tereza, mulher preta e sacerdotisa, deixou para Jaguaracy, sacerdotisa de candomblé em Araucária, algo que não cabe em cofre: fios de conta, Nkisse, ancestralidade, tradição e fé. Deixou um caminho. E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de uma mãe continuar vivendo na vida de uma filha.
Jaguaracy Santana dos Santos nasceu dentro do Axé, em Nazaré das Farinhas, na Bahia. Filha de sacerdotisa, aos 12 anos foi escolhida por seu pai, Odé Kassú, para ser Kutala – a herdeira responsável por dar continuidade à Casa. Aos 15, foi iniciada no Candomblé. Ainda menina, recebeu uma responsabilidade que atravessaria sua vida inteira.
Anos depois, o destino a trouxe para Araucária. Em 1996, depois de se casar, foi morar na casa de um familiar do marido. Quando ele descobriu que ela era candomblecista, pediu que saísse. Todos os dias se ajoelhava e orava para que o “diabo de saia” deixasse sua casa. Ela saiu. E acabou recebendo uma pequena casa no bairro Santa Regina – telhado de Eternit com buracos, chuva molhando tudo, granizo exigindo desespero para proteger a casa e o filho pequeno. Mas ela ficou. Porque aquela casa não era apenas uma casa. Era a possibilidade de ter novamente um chão para sua ancestralidade.
O Inzo Gunzo Lembagemim nasceu em 4 de setembro de 1999. Um terreiro não nasce só de cimento e telhado. Nasce de uma história, de uma mãe, de uma filha e de uma ancestralidade que se recusa a morrer. Foi ali que Jaguaracy acolheu uma mulher grávida em risco, depois famílias em sofrimento, pessoas enfrentando exclusão, dependência, preconceito e rejeição por orientação sexual. Aquele pequeno espaço se transformou em Casa de Axé. Ela não construiu apenas um terreiro. Construiu pertencimento.
Conheceu também a face dura da intolerância: casa apedrejada, filhos de santo sofrendo bullying, a necessidade de lutar por direitos. As vigas daquele terreiro não sustentam apenas cimento. Sustentam memória. Sustentam as mãos de Tia Tereza.
Sua mãe faleceu em 27 de agosto de 2010. Jaguaracy enfrentava danos das chuvas quando recebeu a notícia. Viajou em corrida contra o tempo. Foi a última vez que viu Tia Tereza com vida. Recebeu sua bênção. E voltou carregando uma saudade que nunca a abandonou.
Em 2019, o Terreiro Odé Kassú foi transferido da Bahia para Araucária. Nove anos depois da partida da mãe, uma parte dela finalmente chegou ao lugar onde a filha havia escolhido permanecer.
Jaguaracy pediu durante anos para voltar à Bahia. Até entender: Araucária também era seu lugar.
Ser mulher preta, nordestina e sacerdotisa mantendo o Candomblé de Angola no Sul do Brasil não é apenas fé. É resistência. É mostrar que a cultura negra não ficou na Bahia, nem na África, nem no passado. Ela está viva.
E há algo ainda mais bonito: Jaguaracy não usa o terreiro só para preservar o que recebeu. Abre as portas para que outros encontrem o que tantas vezes lhes foi negado – acolhimento. O Inzo tornou-se espaço de fé, família, cultura e transmissão de conhecimento. Um lugar onde se combatem o medo e a intolerância pelo simples ato de permitir que as pessoas conheçam.
Neste ano, o terreiro celebra o Nkisse Kavungo em dois momentos especiais. No sábado, 15 de agosto, a partir das 15h: palestra sobre ervas medicinais com Cintia André; às 17h, Ladainha de São Roque com a benzedeira Zilda Avelina, distribuição de ervas e mudas, e conversa com o historiador Alisson Gonçalves sobre prevenção de HIV/AIDS e outras ISTs em terreiros. No domingo, 16 de agosto, a Carreata de Tateto Kavungo e São Roque 2026: concentração às 14h na Rua Marcos André Huttener, 66, saída às 15h, com destino ao Terreiro Odé Kassú Lembagemym Junsara, mais informações pelo contato (41) 99600-0908.
A carreata é tradição que Jaguaracy recebeu da mãe e continua levando pelas ruas de Araucária. Qualquer pessoa pode participar. Não é preciso professar a mesma fé. É preciso apenas chegar com respeito, curiosidade e coração aberto.
Quando Jaguaracy coloca o Candomblé de Angola nas ruas de Araucária, ela não leva apenas cultura. Leva Tia Tereza. Leva a Bahia. Leva seus ancestrais. Leva uma história que sua mãe lhe entregou para que não terminasse nela.
E por isso aquela frase continua tão viva:
“Filha minha, não conhece o medo. Filha minha é desbravadora e vencedora. Caiu? Chora, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.”
Jaguaracy caiu.
Chorou.
Levantou.
E continua plantando, em Araucária, a raiz que sua mãe um dia plantou nela.
Edição n.º 1945
