Alguns leitores talvez saibam que, há dois anos, deixei a cidade de Araucária, no Paraná — onde vivi por treze anos e construí minha trajetória como escritor — para iniciar uma nova etapa da vida em Fortaleza, capital do Ceará.

Foi aqui que vivi um episódio curioso envolvendo espiritualidade, futebol e consciência profissional durante a final do Campeonato Cearense de 2026, entre Fortaleza e Ceará.

Alguns dias antes da decisão, recebi um convite do Globo Esporte Ceará para participar de uma reportagem sobre as tendências espirituais do campeonato a partir do baralho cigano. Aceitei o convite e marcamos o dia da gravação.

Na noite que antecedia a entrevista tive um sonho muito claro sobre o resultado do campeonato. Ao longo do dia, também senti um forte palpite intuitivo sobre qual time venceria. Ainda assim, eu sabia que diante das câmeras teria que respeitar o que o baralho mostrasse naquele momento.

Quando a repórter chegou para a gravação, comentei com ela que tinha uma intuição pessoal sobre o resultado, mas que só revelaria isso depois de abrir as cartas diante das câmeras.
E então veio o momento curioso.

Quando o baralho foi aberto, as cartas mostraram o Ceará com melhores condições de vitória. Ao mesmo tempo havia um alerta claro: não deveria existir excesso de confiança, porque o adversário viria com muita intensidade e poderia provocar uma virada de jogo.

Durante a entrevista, quando a repórter perguntou qual time parecia mais tranquilo para vencer, eu respondi exatamente o que o baralho indicava naquele momento: o Ceará apresentava melhores condições pelas cartas, ainda que existisse possibilidade de reação do Fortaleza.

Terminada a tiragem, a repórter me perguntou qual era o meu palpite intuitivo. Então eu disse com franqueza que, apesar das cartas apontarem vantagem para o Ceará, eu havia visto o Fortaleza levantando a taça.

A entrevista foi ao ar naquela mesma semana.

No domingo da decisão, pela manhã, meu Exu incorporou e conversou com uma filha de santo de Umbanda. Em determinado momento ele deixou um conselho que ficou muito claro para mim naquele dia.

Ele disse: “Minha filha, o segredo de um homem próspero não é estar focado na coroa ou no glamour do status, mas lembrar quais meias ele veste cada dia.” Era o Exu Sete Porteiras falando, e eu entendi aquilo como um chamado à simplicidade e à verdade.

Naquela noite aconteceu o jogo.

O Ceará abriu o placar no primeiro tempo. No segundo tempo o Fortaleza empatou. A decisão foi para os pênaltis e ali, após uma falha do Ceará, o Fortaleza venceu por cinco a quatro.

Depois da partida, em conversa com a repórter, ela comentou que no estádio lembrou da nossa entrevista.

Mas o que mais ficou marcado para mim em toda essa história não foi o acerto em si.

Foi a consciência de que naquele momento eu precisei ser absolutamente fiel ao que vi. Tanto ao que as cartas mostraram quanto à intuição que eu havia recebido.

Nenhum cartomante é dono do destino. Somos leitores de caminhos.

Mas falar exatamente o que se vê — e não o que as pessoas esperam ouvir — é o que separa, na profissão e na vida, os meninos dos homens.

Se naquele momento eu tivesse tentado ajustar a história para parecer mais coerente, talvez dissesse que sempre soube quem venceria. Mas aí eu estaria com as meias trocadas e com uma coroa de lata na cabeça.

E a vida ensina uma coisa simples: quem diz a verdade pode até parecer estranho por um momento. Mas quem vive de mentira, cedo ou tarde acaba enterrado por ela.

Edição n.º 1506.